De novo entre mesas
arruadas, o olhar pendula, nervoso,
entre a essência
efémera dos transeuntes e a permanência
da tinta, com que
jamais contei, ou só na adolescência,
apesar do teatro da
fleuma e do empenho. Olho-as e vejo
como se assemelham, à
falta de origem e destino precisos ou,
sequer, concretos, mas
exsudando ambas umas gotinhas parvas,
como se acreditassem
acercar-se de um campo de batalha.
Os auscultadores da
tatuada à esquerda bufam uma estepe
de sons certamente
recentes mas que parecem querer salvar
um velho que periclita
na beira de um precipício, dando o braço
a outro, e este a
outro, e esse a outro ainda, até chegarmos
à
estética do grito,
Certain Blacks do what they wanna,
etc.
Invade-me uma
simpatia instantânea, quase esperançosa,
certamente tola, como
se o mirífico ano-zero pudesse nascer
de um monturo, ainda
que minado por dentes de tubarão.
Talvez a desgraça do
mundo decorra da pontuação,
da legibilidade, do
almoço, do sono. As algas enoveladas
são uma lição, apenas
uma imagem, lentíssimo foguete
entre margens do
mundo, inominadas, e eis-nos num refúgio
sem paredes,
COMPANHIA DE SEGUROS FIDELIDADE,
ornitorrinco nunca
presenciado mas debicando sempre o ponto
G
— de gólgota —
como os peixes turcos
que comem a pele morta.
Predigo o afastamento
da tatuada, que logo se levanta, predigo
36h de mudez,
atomizo-me e recolho a uma bola de sabão
que nunca enfunei,
que nunca sobrevoou os campos e, contudo,
existe numa bobine de
filme de amarelos saturados, algures
entre Santa Clara e
Sapadores, apesar de ser chão renegado,
porque só os pífios
cortejam ex-mulheres
(ou quem esteja com a
garganta mais puída do que as abas
de
um cego solitário).
Escolho não ver;
olhar é lento que baste, rouba-nos à anamorfose
da morte abençoada —
tilintam as amígdalas, acordam
os morcegos, as unhas
crescem para dentro, tudo é eterno,
infernalmente,
milhares de milhões
de beiças escorrendo gordura verde-mosca,
a iridescência à
escala dos engenheiros civis.
Que arma pode ser uma
conchinha? Uma conchinha, na (tua) mão.
Miguel Martins
(inédito)
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