quinta-feira, 4 de outubro de 2018


De novo entre mesas arruadas, o olhar pendula, nervoso,
entre a essência efémera dos transeuntes e a permanência
da tinta, com que jamais contei, ou só na adolescência,
apesar do teatro da fleuma e do empenho. Olho-as e vejo
como se assemelham, à falta de origem e destino precisos ou,
sequer, concretos, mas exsudando ambas umas gotinhas parvas,
como se acreditassem acercar-se de um campo de batalha.
Os auscultadores da tatuada à esquerda bufam uma estepe
de sons certamente recentes mas que parecem querer salvar
um velho que periclita na beira de um precipício, dando o braço
a outro, e este a outro, e esse a outro ainda, até chegarmos
à estética do grito,
Certain Blacks do what they wanna,
etc.
Invade-me uma simpatia instantânea, quase esperançosa,
certamente tola, como se o mirífico ano-zero pudesse nascer
de um monturo, ainda que minado por dentes de tubarão.
Talvez a desgraça do mundo decorra da pontuação,
da legibilidade, do almoço, do sono. As algas enoveladas
são uma lição, apenas uma imagem, lentíssimo foguete
entre margens do mundo, inominadas, e eis-nos num refúgio
sem paredes, COMPANHIA DE SEGUROS FIDELIDADE,
ornitorrinco nunca presenciado mas debicando sempre o ponto
                                  G
                            — de gólgota —
como os peixes turcos que comem a pele morta.
Predigo o afastamento da tatuada, que logo se levanta, predigo
36h de mudez, atomizo-me e recolho a uma bola de sabão
que nunca enfunei, que nunca sobrevoou os campos e, contudo,
existe numa bobine de filme de amarelos saturados, algures
entre Santa Clara e Sapadores, apesar de ser chão renegado,
porque só os pífios cortejam ex-mulheres
(ou quem esteja com a garganta mais puída do que as abas
                                                            de um cego solitário).
Escolho não ver; olhar é lento que baste, rouba-nos à anamorfose
da morte abençoada — tilintam as amígdalas, acordam
os morcegos, as unhas crescem para dentro, tudo é eterno,
                                                            infernalmente,
milhares de milhões de beiças escorrendo gordura verde-mosca,
a iridescência à escala dos engenheiros civis.
Que arma pode ser uma conchinha? Uma conchinha, na (tua) mão.

Miguel Martins
(inédito)

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