VOZES, ÁGUA TÉPIDA,
passos de dança intra-uterina,
ensejo e pé na porta,
entrada triunfal. Mulheres
que cantam e homens que choram
como quem canta, coro animal,
salgada ponte daqui para um lugar
onde as aves voam rasteiro
sem que possamos, ainda assim,
deitar-lhes mão para um afago,
uma pergunta, um desleixo feito
de cordas ensanguentadas
pelo desabar da clarividência.
Os bailarinos não se atrevem
a descer, mantêm intacta
a superfície dos lagos, espelho
de um céu terroso, não há
granizo que substitua
a rocha moída,
o pão dos dias.
Detalhes esculpidos pelo marasmo,
a entropia que se faz cuspo
no canto da boca,
três toalhas de Outono
sobre as escadas. Filhos da ordem,
catatónicos imberbes
impossibilitados
de reclamar por escrito,
soprar velas,
fintar o desejo
de acordar no dia seguinte.
O tremor anuncia a mudança;
não há quezília.
As laranjas continuam a ter
o sabor das laranjas.
Filipe Homem Fonseca
(Inédito)
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