sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

 


VOZES, ÁGUA TÉPIDA,

passos de dança intra-uterina,

ensejo e pé na porta,

entrada triunfal. Mulheres

que cantam e homens que choram

como quem canta, coro animal,

salgada ponte daqui para um lugar

onde as aves voam rasteiro

sem que possamos, ainda assim,

deitar-lhes mão para um afago,

uma pergunta, um desleixo feito

de cordas ensanguentadas

pelo desabar da clarividência.

Os bailarinos não se atrevem

a descer, mantêm intacta

a superfície dos lagos, espelho

de um céu terroso, não há

granizo que substitua

 

a rocha moída,

o pão dos dias.

 

Detalhes esculpidos pelo marasmo,

a entropia que se faz cuspo

no canto da boca,

três toalhas de Outono

sobre as escadas. Filhos da ordem,

catatónicos imberbes

impossibilitados

de reclamar por escrito,

soprar velas,

fintar o desejo

de acordar no dia seguinte.

O tremor anuncia a mudança;

não há quezília.

As laranjas continuam a ter

o sabor das laranjas.

 

Filipe Homem Fonseca

(Inédito)

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