Não há como agradecer as saudades
que de nós tiveram, têm ou terão
aqueles entre quem e nós
o manifesto excesso da morte,
o esfiapado défice de vida
ergueram um véu de silêncio
mais espesso que a coragem
de ir serenamente ao seu encontro
por sobre o pedregal do que não tem porquê.
Escrevo estas palavras com perfume de versos
e isso em nada me desonera dos actos cortantes
que nunca terei, funcionário do quotidiano
mascarado de górgona
ou elusiva fulguração de uma boca desdentada
abrigada pela reverência pretérita.
Estão fora de moda, bem sei, mas existem mesmo
obrigações contraídas a cada apropriação da pele alheia:
fodermos ou rirmos, por exemplo,
até que os olhos fiquem cor de laranja.
Miguel Martins
12/08/23
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