sábado, 12 de agosto de 2023

 

Não há como agradecer as saudades

que de nós tiveram, têm ou terão

aqueles entre quem e nós

o manifesto excesso da morte,

o esfiapado défice de vida

ergueram um véu de silêncio

mais espesso que a coragem

de ir serenamente ao seu encontro

por sobre o pedregal do que não tem porquê.

 

Escrevo estas palavras com perfume de versos

e isso em nada me desonera dos actos cortantes

que nunca terei, funcionário do quotidiano

mascarado de górgona

ou elusiva fulguração de uma boca desdentada

abrigada pela reverência pretérita.

 

Estão fora de moda, bem sei, mas existem mesmo

obrigações contraídas a cada apropriação da pele alheia:

fodermos ou rirmos, por exemplo,

até que os olhos fiquem cor de laranja.

 

Miguel Martins

12/08/23

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