Assim como não quero meter a vida dentro da poesia,
nem a poesia dentro
da vida — é em vez desta
que ela está bem,
passeando eu por entre palavras
musicais —, não desejo
que os meus périplos ideológicos
se tornem realidade. Façam
o que quiserem do que quiserem,
inclusive de mim,
desde que no meu cérebro haja uma ilha
e nessa ilha a fruta
tombe quotidianamente das árvores
e eu seja essa fruta
e o meu sumo inunde a terra
transformado em urina
de mulher. Não me importa
ter razão nem ser
justo nem sequer fazer sentido.
Quero, isso sim, uma
vez mais, uma vez de cada vez,
ver a sede do teu
sorriso saciada, ouvir a tua língua
estalar e, desfocado
pelo sol, ver o teu corpo afastar-se
em direcção a um fundo
tranquilo como uma aquarela,
na certeza de que
regressará logo que o acaso se imponha.
E é assim que a minha
ordem é caos e o caos ordem,
delicadamente como o
voo dos pássaros, o vento ao pousar,
a mão de Deus antes
do início do tempo e depois do seu fim.
Miguel Martins
15/01/2026
(Imagem: J. M. W. Turner, Study of Sea and Sky, c. 1823-6.)

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