quinta-feira, 15 de janeiro de 2026



Assim como não quero meter a vida dentro da poesia,

nem a poesia dentro da vida — é em vez desta

que ela está bem, passeando eu por entre palavras

musicais —, não desejo que os meus périplos ideológicos

se tornem realidade. Façam o que quiserem do que quiserem,

inclusive de mim, desde que no meu cérebro haja uma ilha

e nessa ilha a fruta tombe quotidianamente das árvores

e eu seja essa fruta e o meu sumo inunde a terra

transformado em urina de mulher. Não me importa

ter razão nem ser justo nem sequer fazer sentido.

Quero, isso sim, uma vez mais, uma vez de cada vez,

ver a sede do teu sorriso saciada, ouvir a tua língua

estalar e, desfocado pelo sol, ver o teu corpo afastar-se

em direcção a um fundo tranquilo como uma aquarela,

na certeza de que regressará logo que o acaso se imponha.

E é assim que a minha ordem é caos e o caos ordem,

delicadamente como o voo dos pássaros, o vento ao pousar,

a mão de Deus antes do início do tempo e depois do seu fim.

 

Miguel Martins

15/01/2026

(Imagem: J. M. W. Turner, Study of Sea and Sky, c. 1823-6.)

Sem comentários:

Enviar um comentário