quarta-feira, 22 de julho de 2026

A Performance do Erro

 


é pensar assim:

podia ficar aqui a escrever até de manhã

ou subir a um palco e dizer toda a noite

"sandes de merda"

que não ia mudar nada

o prémio nobel já foi português

o pessoa já nasceu e já morreu

o arquitecto parece que afinal dorme

o holocausto já disse o que tinha a dizer

o poeta continuou a falar

o melhor já foi ou está para vir

o drummond já encontrou a solução

o hegel formulou a santíssima trindade

o homem invadiu a lua

o terramoto de 1755 já passou

o tolstoi já escreveu a. karenina

o bicho-da-seda já é outra coisa e não precisou que eu lhe ensinasse nada

o tabaco aumentou outra vez

o canal hollywood só dá merda

o montaigne descobriu o ensaio

o machado de assis o conto

o borges chegou viu e venceu

o senhor deus é canhoto e escreve todo torto

o martini continua a ser melhor com gelo e limão do que com limão e gelo

o bombeiro continua a ser um herói

o involuntário é um super-herói

o rol é uma coisa que caiu em desuso e é pena

o amarelo ainda é uma cor que devia pedir desculpa por existir

o amor ainda é fodido e o mec é só chato

o conforto ainda não saiu de casa dos pais

o louro ainda é repartido entre os poetas e a carne de porco

o vinho ainda é aquele passe de alquimista

o beckett continuará a errar a torto e a direito

os homens já fizeram tudo

falta só tirar o som aos aspiradores

pode parecer que temos um problema, madame

mas na verdade não temos

mesmo que o mundo fosse acabar

alguma coisa haveria de se arranjar

teremos sempre as madrugadas, madame,

para por elas errar memoravelmente

e depois

quem é que se vai lembrar?


Marta Navarro

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