é pensar assim:
podia ficar aqui a escrever até de manhã
ou subir a um palco e dizer toda a noite
"sandes de merda"
que não ia mudar nada
o prémio nobel já foi português
o pessoa já nasceu e já morreu
o arquitecto parece que afinal dorme
o holocausto já disse o que tinha a dizer
o poeta continuou a falar
o melhor já foi ou está para vir
o drummond já encontrou a solução
o hegel formulou a santíssima trindade
o homem invadiu a lua
o terramoto de 1755 já passou
o tolstoi já escreveu a. karenina
o bicho-da-seda já é outra coisa e não precisou que eu lhe ensinasse
nada
o tabaco aumentou outra vez
o canal hollywood só dá merda
o montaigne descobriu o ensaio
o machado de assis o conto
o borges chegou viu e venceu
o senhor deus é canhoto e escreve todo torto
o martini continua a ser melhor com gelo e limão do que com limão e
gelo
o bombeiro continua a ser um herói
o involuntário é um super-herói
o rol é uma coisa que caiu em desuso e é pena
o amarelo ainda é uma cor que devia pedir desculpa por existir
o amor ainda é fodido e o mec é só chato
o conforto ainda não saiu de casa dos pais
o louro ainda é repartido entre os poetas e a carne de porco
o vinho ainda é aquele passe de alquimista
o beckett continuará a errar a torto e a direito
os homens já fizeram tudo
falta só tirar o som aos aspiradores
pode parecer que temos um problema, madame
mas na verdade não temos
mesmo que o mundo fosse acabar
alguma coisa haveria de se arranjar
teremos sempre as madrugadas, madame,
para por elas errar memoravelmente
e depois
quem é que se vai lembrar?
Marta Navarro
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