segunda-feira, 27 de julho de 2026

Apocatástase

 

Aguardar-te-ei

até que a morte nos separe

para depois nos unir.

 

Aguardar-te-ei

de costas voltadas

pois é no mar que melhor consigo divisar

a forma eterna das tuas feições

guardada numa nesga incandescente da memória

que, friável, ao redor dela se vai esboroando.

 

Nunca soube nada de astronomia

e pouco de anatomia e psicanálise;

tenho vagas noções de história

e de uma geografia desactualizada pela política

das salvas de tiros, dos aplausos

e das transitórias noções de desconfortável conforto.

 

Contudo, aguardar-te-ei

naquela açoteia — lembras-te? — onde fizemos amor

com vista sobre a cidade,

com vista sobre o mundo

de Oriente a Ocidente e mais além,

como se os pontos cardeais fossem estrelas

e as estrelas fossem íris

e, em silêncio, prevendo o inevitável,

jurassem para sempre:

 

Aguardar-te-ei.

 

(Escreveste-o, por outras palavras, numa parede

— recordas-te? — e, desde então, todos os dias,

o gravo com uma faca no côncavo do meu peito.)

 

Aguardar-te-ei

enquanto for preciso

e até que o não seja,

até que a alma do Diabo ascenda ao Paraíso

e nos sentemos à mesa com vinho e peixe frito

ou apenas com as nossas mãos

para repasto

 

das nossas mãos.

 

 

Miguel Martins

27/07/26

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