Apocatástase
Aguardar-te-ei
até que a morte nos
separe
para depois nos unir.
Aguardar-te-ei
de costas voltadas
pois é no mar que melhor
consigo divisar
a forma eterna das
tuas feições
guardada numa nesga
incandescente da memória
que, friável, ao
redor dela se vai esboroando.
Nunca soube nada de
astronomia
e pouco de anatomia e
psicanálise;
tenho vagas noções de
história
e de uma geografia
desactualizada pela política
das salvas de tiros, dos
aplausos
e das transitórias
noções de desconfortável conforto.
Contudo,
aguardar-te-ei
naquela açoteia —
lembras-te? — onde fizemos amor
com vista sobre a
cidade,
com vista sobre o
mundo
de Oriente a Ocidente
e mais além,
como se os pontos
cardeais fossem estrelas
e as estrelas fossem
íris
e, em silêncio, prevendo
o inevitável,
jurassem para sempre:
Aguardar-te-ei.
(Escreveste-o, por
outras palavras, numa parede
— recordas-te? — e,
desde então, todos os dias,
o gravo com uma faca
no côncavo do meu peito.)
Aguardar-te-ei
enquanto for preciso
e até que o não seja,
até que a alma do
Diabo ascenda ao Paraíso
e nos sentemos à mesa
com vinho e peixe frito
ou apenas com as
nossas mãos
para repasto
das nossas mãos.
Miguel Martins
27/07/26
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