É muito simples: desejo apenas que,
pelo fim da vida, ninguém me aguarde
ao chegar a casa.
Aliás, espero não ter
casa, viver num
quarto de hotel
em que as marcas do
tempo comum
façam as vezes de
memórias pessoais.
Isto já vai com 56
anos, 120 quilos,
um ror de tempo
perdido, incluindo
a mesa, a cama, a
estante, a secretária
e, sobretudo, o chamado
mobiliário urbano.
Salvam-se, talvez,
umas caudas de lagosta
em St. Ives, um amor
que paira num tempo
já sem cronologia, as
aventuras do Barão
de Münchhausen e a
confiança ingénua
de um par de desenhos
científicos que
tracei na
adolescência como se bebesse
vinho de uma fonte. É
muito simples:
fujo de opiniões e
protestos, sentimentos
e personalidades,
como o Diabo da cruz,
Maomé do toucinho,
etc., etc.; tolero ainda
alguma factologia anedótica
e a estética
de um cabo eléctrico
desgrenhado;
mas só me interessam
beijos indistintos
do chilrear dos
pássaros numa vereda
em que a sombra peça
meças ao sol
e a manhã seja a
noite da noite.
Miguel Martins
06/09/25
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