domingo, 6 de setembro de 2026

É muito simples: desejo apenas que,

pelo fim da vida,  ninguém me aguarde

ao chegar a casa. Aliás, espero não ter

casa, viver num quarto de hotel

em que as marcas do tempo comum

façam as vezes de memórias pessoais.

Isto já vai com 56 anos, 120 quilos,

um ror de tempo perdido, incluindo

a mesa, a cama, a estante, a secretária

e, sobretudo, o chamado mobiliário urbano.

Salvam-se, talvez, umas caudas de lagosta

em St. Ives, um amor que paira num tempo

já sem cronologia, as aventuras do Barão

de Münchhausen e a confiança ingénua

de um par de desenhos científicos que

tracei na adolescência como se bebesse

vinho de uma fonte. É muito simples:

fujo de opiniões e protestos, sentimentos

e personalidades, como o Diabo da cruz,

Maomé do toucinho, etc., etc.; tolero ainda

alguma factologia anedótica e a estética

de um cabo eléctrico desgrenhado;

mas só me interessam beijos indistintos

do chilrear dos pássaros numa vereda

em que a sombra peça meças ao sol

e a manhã seja a noite da noite.

 

Miguel Martins

06/09/25

Sem comentários:

Enviar um comentário