segunda-feira, 30 de março de 2020


Aprendeu a andar em euforia,
escorado, pelo que cada deserção
foi-lhe arrancando o ânimo e o fôlego
até ficar só carne, sobra inútil,
desmemória com brilhos de esmeril.

Era ternura a guerra que fazia,
sementeira de estrelas pelos baldios,
mas não sabia que cara é a meninice
nesta chafurda de atilhos, travesseiros,
reversos, procriação e brilhantina.

Não teve nem casulo nem a honra
da posição fetal, a marcha-atrás,
sequer um miserere ou um estio
como pano de fundo derradeiro —
houve apenas um brinde num covil:

um punhado de loucos bebeu vinho
partindo os copos no trilho da manhã.

Miguel Martins


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