segunda-feira, 20 de abril de 2026

 


Dão-te um pedaço de pão como se dessem uma nota de mil, e acabando de o dar imaginam que têm abertas as portas do Paraíso. Pensa bem, que motivo os leva a fingir que são generosos? É para se porem em paz com a sua consciência, apenas para isso, meu pequeno. Atiram-te uma côdea e assim já não se envergonham de comer. É apenas por isso, não penses que é por terem pena de ti. O tipo que come de modo a saciar toda a fome é um selvagem, e nunca tem pena do que tem a barriga vazia. O saciado e o faminto serão sempre inimigos, olharão sempre um para o outro como cães prontos a engalfinharem-se. Não há possibilidade de se comoverem e de procurarem entender-se...

MÁXIMO GORKI

(tradução: Egito Gonçalves)

 


O Buraco

Às vezes, como passara vários dias sem fazer amor, e como tinha encontro marcado no dia seguinte com uma mulher, acordava, de noite, perguntando-me como era possível que a mulher com quem tinha o encontro tivesse, realmente, um buraco, no baixo ventre, no qual eu deveria entrar.

Com a terra, a mesma coisa. Embora saiba que há, algures no ventre da terra, um buraco, onde, chegado o momento, deverei entrar, não consigo imaginar como poderei fazê-lo, parece-me impossível que isso aconteça.

Pierre Bourgeade

(tradução: Miguel Martins)


 

A cirrose do fígado é uma flor perniciosa

e o amor um longo caminho tortuoso

escoltado pelas altas e imensas falésias

donde caem pequenos calhaus quem fendem os corações

 

A hora de nos retirarmos dos lençóis que se colam à carne

é um horror sem nome

Abrir portas descer escadas pisar

merda nas ruas

qualquer coisa como uma precoce descida ao túmulo

 

Escrever no côncavo da mão com

uma caneta verde

o número de telefone de uma mulher

que forçosamente destruiremos

será sempre um começo e um fim

de romance negro.

 

André Laude

(tradução: Miguel Martins)


domingo, 19 de abril de 2026

Seichō Matsumoto, 1961



 (tradução: Beth Cary)


 

Duas de cinco ilustrações do Luís França para o meu próximo livro



 

 


Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro - seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Almeida Garrett in VIAGENS NA MINHA TERRA (1846)

(Thanks, Ricardo.)

quinta-feira, 16 de abril de 2026

No novo site do Manuel A. Domingos, lá estão, entre outros

ABBAS KIAROSTAMI

ALEJANDRA PIZARNIK

AMBROSE BIERCE

ANDREA ZANZOTTO

ANTONIO GAMONEDA

ANZAI FUYUE

BENJAMÍN RAMON

BERNARDO ATXAGA

BORIS PASTERNAK

BREYTEN BREYTENBACH

CHARLES BUKOWSKI

CHARLES SIMIC

CRISTINA PERI ROSSI

D. H. LAWRENCE

DINO CAMPANA

E. E. CUMMINGS

E. ETHELBERT MILLER

ELENA MEDEL

ELENA TOUMAZI

ELIZABETH BISHOP

ERIC PANKEY

FÉLIX FRANCISCO CASANOVA

FENG ZHI

GEORGE OPPEN

GÜNTER EICH

GWENDOLYN BROOKS

J. G. BALLARD

JACQUES PRÉVERT

JOAN JOBE SMITH

JOAN MARGARIT

JOHN BERRYMAN

KARMELO C. IBARREN

LEOPOLDO MARIA PANERO

LETICIA LUNA

LUIGI ANSELMI

LUIS ALBERTO DE CUENCA

LUIS CHAVES

MITSUYE YAMADA

MIYOSHI TATSUJI

PHILIP LARKIN

RAYMOND CARVER

ROBERTO BOLAÑO

ROGER WOLFE

ROSARIO CASTELLANOS

SANDRO PENNA

SHINPEI KUSANO

STEPHEN CRANE

TADEUSZ RÓZEWICZ

TOMAS TRANSTROMER

VLADIMÍR HOLAN

W. B. YEATS

W. S. GRAHAM

WALLACE STEVENS

WALT WHITMAN

WILLIAM CARLOS WILLIAMS

XABIER MONTOIA

YOLANDA CASTAÑO

ZBIGNIEW HERBERT


https://ervasdeestio.substack.com/archive

José Luís Tinoco (1932-2026)

 https://cachimbodemilho.blogspot.com/search?q=Jos%C3%A9+Lu%C3%ADs+Tinoco


 


 

Amanhã

Um mês sem cigarros (e mais de dois sem álcool).
 

 


Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto    tão perto    tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

 

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

 

Mário Cesariny