domingo, 26 de julho de 2026

Hoje: Okinawa em Paço d'Arcos





 

Paulo Ramalho*


* naquele que é, na minha opinião, juntamente com O Centro do Mundo de Ana Cristina Leonardo, o melhor livro de prosa portuguesa que li nos últimos muitos anos.
 

Potemkin villages





 

 


Naquele «pic-nic» de burgueses,

Houve uma coisa simplesmente bela,

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.

 

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão de bico

Um ramalhete rubro de papoulas.

 

Pouco depois, em cima duns penhascos

Nós acampámos, inda o sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão de ló molhado em malvasia.

 

Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro de papoulas!

 

Cesário Verde

Gonçalo Byrne





 

quinta-feira, 23 de julho de 2026



 (Thanks, Carlos.)


 

Documentary: Xavier Fréquant & Yassir Guelzim's La prohibition américaine, une aubaine française (2024)


Le 5 décembre 1933 marque la fin du "Volstead Act", qui interdit aux Américains de boire, d'importer ou de vendre de l'alcool. Pendant douze ans de prohibition, la plaque tournante du trafic en Amérique du Nord, la petite colonie de Saint-Pierre-et-Miquelon, connaît un essor incroyable. Les produits français, champagne en tête, ont la cote outre-Atlantique. Cette manne providentielle profite à l'économie hexagonale. Les gouvernements français qui se succèdent durant cette période font tout pour favoriser ce commerce, au grand dam des Américains.

 

Trip down Memory Lane: Gabriela Schaaf - Eu Só Quero (1979)

As coisas que eu já li...


 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Estudos Cosmológicos e Parapsicológicos


 

Luís Represas (1956-2026)


 

A Performance do Erro

 


é pensar assim:

podia ficar aqui a escrever até de manhã

ou subir a um palco e dizer toda a noite

"sandes de merda"

que não ia mudar nada

o prémio nobel já foi português

o pessoa já nasceu e já morreu

o arquitecto parece que afinal dorme

o holocausto já disse o que tinha a dizer

o poeta continuou a falar

o melhor já foi ou está para vir

o drummond já encontrou a solução

o hegel formulou a santíssima trindade

o homem invadiu a lua

o terramoto de 1755 já passou

o tolstoi já escreveu a. karenina

o bicho-da-seda já é outra coisa e não precisou que eu lhe ensinasse nada

o tabaco aumentou outra vez

o canal hollywood só dá merda

o montaigne descobriu o ensaio

o machado de assis o conto

o borges chegou viu e venceu

o senhor deus é canhoto e escreve todo torto

o martini continua a ser melhor com gelo e limão do que com limão e gelo

o bombeiro continua a ser um herói

o involuntário é um super-herói

o rol é uma coisa que caiu em desuso e é pena

o amarelo ainda é uma cor que devia pedir desculpa por existir

o amor ainda é fodido e o mec é só chato

o conforto ainda não saiu de casa dos pais

o louro ainda é repartido entre os poetas e a carne de porco

o vinho ainda é aquele passe de alquimista

o beckett continuará a errar a torto e a direito

os homens já fizeram tudo

falta só tirar o som aos aspiradores

pode parecer que temos um problema, madame

mas na verdade não temos

mesmo que o mundo fosse acabar

alguma coisa haveria de se arranjar

teremos sempre as madrugadas, madame,

para por elas errar memoravelmente

e depois

quem é que se vai lembrar?


Marta Navarro


 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

 


Sixty is not a bad age unless in perspective, when no doubt it is contemplated by the majority of us with mixed feelings. It is a calm age; the game is practically over by then; and standing aside one begins to remember with a certain vividness what a fine fellow one used to be. I have observed that, by an amiable attention of Providence, most people at sixty begin to take a romantic view of themselves. Their very failures exhale a charm of peculiar potency. And indeed the hopes of the future are a fine company to live with, exquisite forms, fascinating if you like, but−−so to speak−−naked, stripped for a run. The robes of glamour are luckily the property of the immovable past which, without them, would sit, a shivery sort of thing, under the gathering shadows.

Joseph Conrad