Tout homme qui à quarante ans n’est pas misanthrope, n’a jamais aimé les hommes.
Nicolas de Chamfort
11th July 1897: three men set off from Svalbard in a hydrogen balloon
in the direction of the North Pole. They never returned. 33 years later, the
remains of the expedition, notebooks and film reels were found.
Dão-te um pedaço de pão como se dessem uma nota de mil, e acabando de o dar imaginam que têm abertas as portas do Paraíso. Pensa bem, que motivo os leva a fingir que são generosos? É para se porem em paz com a sua consciência, apenas para isso, meu pequeno. Atiram-te uma côdea e assim já não se envergonham de comer. É apenas por isso, não penses que é por terem pena de ti. O tipo que come de modo a saciar toda a fome é um selvagem, e nunca tem pena do que tem a barriga vazia. O saciado e o faminto serão sempre inimigos, olharão sempre um para o outro como cães prontos a engalfinharem-se. Não há possibilidade de se comoverem e de procurarem entender-se...
MÁXIMO GORKI
(tradução: Egito Gonçalves)
O Buraco
Às vezes, como passara vários dias sem fazer amor, e como tinha
encontro marcado no dia seguinte com uma mulher, acordava, de noite,
perguntando-me como era possível que a mulher com quem tinha o encontro
tivesse, realmente, um buraco, no baixo ventre, no qual eu deveria entrar.
Com a terra, a mesma coisa. Embora saiba que há, algures no ventre da terra, um buraco, onde, chegado o momento, deverei entrar, não consigo imaginar como poderei fazê-lo, parece-me impossível que isso aconteça.
Pierre Bourgeade
(tradução: Miguel Martins)
A cirrose do fígado é uma flor perniciosa
e o amor um longo caminho tortuoso
escoltado pelas altas e imensas falésias
donde caem pequenos calhaus quem fendem os corações
A hora de nos retirarmos dos lençóis que se colam à carne
é um horror sem nome
Abrir portas descer escadas pisar
merda nas ruas
qualquer coisa como uma precoce descida ao túmulo
Escrever no côncavo da mão com
uma caneta verde
o número de telefone de uma mulher
que forçosamente destruiremos
será sempre um começo e um fim
de romance negro.
André Laude
(tradução: Miguel Martins)
Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu, tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. - No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro - seja o que for; cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Almeida Garrett in VIAGENS NA MINHA TERRA (1846)
(Thanks, Ricardo.)