terça-feira, 31 de março de 2026


 





A memória tem razões imperscrutáveis. Lembro-me do dia 16 de Agosto de 1977. Faltavam três meses para fazer oito anos. Estava com os meus pais e os meus irmãos a passar férias em Albufeira, terra em cuja economia a pesca ainda ombreava com o turismo. Numa roulotte que vendia malacuecos (nome alentejano de umas frituras achatadas) junto à antiga lota, de que hoje só sobra o telheiro, ouvia-se Bilu Teteia, canção editada dois anos antes por Mauro Celso, mas alguém nos disse que o Elvis Presley morrera. Claro que, com aquela idade, não tinha noção da relevância do Elvis para a cultura popular. Creio que o que me impressionou foi o modo como a morte de um artista estrangeiro, de alguém que não conheciam pessoalmente, afectava as pessoas à minha volta, experiência que só viria a ter muito mais tarde, em 1991, com o Freddie Mercury, que ouvi à exaustão em LPs dos meus irmãos, e, mais recentemente, em 2016, com o David Bowie. Pelo meio, em Dezembro de 1980, fora assassinado o John Lennon, metade da maior parceria de escrita de canções da história do pop/rock, mas a minha percepção disso também ainda foi mais do foro da curiosidade do que do sentimento. Não se me pode levar a mal: tinha 11 anos. Hoje seria diferente. E cada vez mais. Com a idade, e apesar de existirem vários discos com letras minhas, fui praticamente deixando de ouvir música popular, a não ser a que consumimos à força. Contudo, simultaneamente, vou-lhe dando cada vez mais valor, não tanto do ponto de vista artístico, mas sim pelo papel que desempenha na sociedade. Ou, como diz uma canção de Caetano Veloso, interpretada por Chico Buarque:

(…)

Vamos homenagear

Todo aquele que nos empresta sua festa

Construindo coisas pra se cantar

(…)

E acima da razão a rima

E acima da rima a nota da canção

Bemol natural sustenida no ar

Viva aquele que se presta a esta ocupação

Salve o compositor popular


Miguel Martins 

segunda-feira, 30 de março de 2026

Todd Webb, em breve na Gulbenkian





 

 


«Jazz às Quintas»

                                     Para a Catarina Gomes

 

18:40 — Café Dias
apinhado de gente

e nós as duas encostadas ao balcão
no ínfimo espaço disponível
duas imperiais
como pequenas promessas de anestesia.

Pedimos croquetes,
quentes demais,
abrimos um ao meio
e o vapor sobe
como um espírito que abandona um corpo cansado.

Tu dizes “isto salva qualquer noite” com a boca cheia,
e por um segundo
acredito numa teologia feita de fritos e cevada.

No canto:
baterista, contrabaixista, trompetista
a santíssima trindade do barulho honesto.

19:15 — O baterista testa o mundo
com toques leves,
como quem vê se o chão ainda aguenta.

O contrabaixo entra depois,
grave,
andar de animal grande pela sala,
cada nota um passo lento
no peito de toda a gente.

O trompete demora, claro.
sempre aquele ar de quem sabe
que vai doer quando começar.

Croquetes comidos.
Eram bons, mas já acabaram —
como certas decisões na vida.

Partilhamos uma cadeira
uma nádega para cada uma
o baterista não pára
(abençoado seja).

19:50 — O trompete rasga o ar.
não melodia:
confissão.

É a minha primeira vez neste bar,
mas vem-me uma sensação estranha
de já ter estado naquele som,
noutra cidade,
noutro corpo,
noutra versão cansada de mim.

Anoto mentalmente:
“A vida adulta é isto —
pagar contas,
perder tempo,
perder amores,
e às vezes encontrar um bar
onde a cerveja é barata
e o jazz é sincero.”

O contrabaixista fecha os olhos,
abraça o instrumento
como se pedisse desculpa
ou agradecesse por ainda aqui estar.

20:00 — Conversa possível
sussurrada ao ouvido para não incomodar
quem ali está para ouvir os músicos
novas aventuras,
medos discretos,
a pergunta clássica:
“é isto mesmo que a vida é?”

O baterista responde por nós:
tum — tss — tum —
seguir, seguir, seguir.

Mais um gole.
A sala quente,
vidros embaciados,
Lisboa lá fora a fingir que o inverno está quase a acabar.

20:45 — O solo do trompete sobe tanto
que por um momento
ninguém mastiga, ninguém fala,
ninguém pensa.

E ali está:
nada resolvido,
nada curado,
mas tudo vivo.

21:15 — Saímos para a rua húmida.
ar frio na cara, chuva miudinha,
riso solto,
passos meio desalinhados
como se ainda seguíssemos o baterista invisível
que disseste ser giríssimo.

Penso:
“Não precisamos de grandes revelações.
Às vezes basta
cerveja,
croquetes,
uma amiga,
e três músicos de jazz
a impedir o silêncio
de ganhar a noite.”

Atravessamos a rua
improvisando futuro
nota a nota,
gole a gole,
como sempre.


Inês Ramos

(Inédito)

WTF am I doing here?: Taormina, Italy



 

Étienne Moulinié (1599-1676): Enfin La beauté

Matisse - Chapelle du Rosaire (Vence, France)




 

Gaetano Donizetti - Lucia di Lammermoor: Oh, giusto cielo!... Il dolce suono (1835)

quinta-feira, 26 de março de 2026

Isto é que é música e o resto é conversa: Olivier Messiaen - Chants de Terre et de Ciel: No. 5, Minuit pile et face (pour la mort) (1938)

Charlie Haden · Hampton Hawes - This Is Called Love (1978)


 

 


Oh you’re so beautiful

God Almighty

You’re so beautiful

 

How beautiful are your hands.

And your legs are so beautiful

And your eyes are so beautiful

And your hair is so beautiful.

 

Don’t torture yourself – love me!

Don’t hold back – love me!

Love me!

with the real power of your hands

your legs, your eyes – with the total

elegance of their every movement.

Believe in me forever – and never

will you be stupid – love me!

And if you’re wicked – love me!

Love me!

 

On the streets, then on the stairs

Especially on the stairs you’re beautiful.

With clothes on or clothes off, uninterruptedly

You’re beautiful…Most beautiful in the room

In the dark, armed with the comb.

And the comb drowns in your hair.

Your hair is full of electricity –

Touch it and I’ll light up in the dark.

You’re really beautiful – believe me.

And try to be beautiful to the end.

Not so much for me as for yourself,

the trees, the windows and people.

Don’t quickly spoil your beauty

With jealous suspicion – forgive my

Sudden lapses on the way –

Please don’t overdo the cigarettes.

Don’t lose me ever – discover me,

Fill me with childish wonder.

Once more I trust myself to your hands,

To your legs, to your eyes…Love me.

How I want to hold you for ever

To love you forever…

Forever.

And how impossible it is for me…You’re so

Like grains of sand…And I beg you, don’t tell me,

That you want to hold on to me forever,

To love me forever, forever.

 

Oh you’re so beautiful

God Almighty

You’re so beautiful

 

Christo Fotev

translation by Christopher Buxton

https://www.christopherbuxton.com/writing/translations/hristo-fotev/