sexta-feira, 20 de março de 2026

Ana Isabel Soares - Um disco: Glossolalia, A Favola da Medusa (2024)


 Sempre que leio a palavra glossolalia, vem-me à ideia a novela distópica que Régis Messac escreveu em 1935, Quinzinzinzili. Demorei a fixar-lhe o título, mas, a partir do momento em que o consegui, sai sem qualquer dificuldade: se o texto de Messac é o relato da perda da linguagem humana, que equivale à perda da Humanidade, aprender uma palavra só através do eco que faz no pensamento é uma maneira de preservar essa linguagem – logo, um modo de sobrevivência do que é humano. Na novela, “quinzinzinzili” é a forma, deturpada ao longo de anos em que um pequeno grupo de sobreviventes de um cataclismo mundial se vai tornando cada vez menos humano, do último verso da oração do Pater Noster, “Qui est in coelis”. Perder o sentido anterior para passar a uma glossolalia, à pronúncia de sons desarticulados, simboliza, segundo Messac, a eliminação do humano. Mas pode ser vista como o começo de alguma coisa que se desconhece (e teme): a erosão de uma linguagem não poderá originar outros modos de comunicação? É uma visão mais otimista, mas não menos lógica.


A palavra e a ideia de “glossolalia” tem um contexto religioso, relacionado com o dia de Pentecostes, ou o momento em que, passados cinquenta dias da crucificação de Cristo, os apóstolos recebem do Espírito Santo os dons que lhes permitirão, na prática, propagar pela terra a mensagem cristã – para tal, para que a possam levar a todos os povos do mundo, um dos dons que sobre eles são “derramados” (Frederico Lourenço sublinha como está na origem da confusão de línguas do episódio descrito em «Atos dos Apóstolos», 2:1-4, um “derramar de líquidos que se misturam e se confundem”) é a capacidade de falar muitas línguas diferentes, a tal glossolalia.

Confusão e possibilidade, estranheza e clareza, perda do que se conhece e abertura para a novidade do desconhecido – estas aparentes contradições, expressões de um inconciliável que, afinal, convive, acompanham-me enquanto ouço Glossolalia, o disco mais recente de A Favola da Medusa, agrupamento que se formou vai para 16 anos e continua a provocar-me os sentidos. Sobretudo porque me traz a mistura de sonoridades inesperadas (sons de água a correr e ruídos mecânicos produzidos por instrumentos tradicionais ou por objetos transformados em instrumentos musicais), sobretudo porque me oferece, ao mesmo tempo, o domínio de melodias nascidas do que normalmente associo à ausência de harmonia e versos de poemas belíssimos (ou a afirmação de que a linguagem que uso continua a fazer muito sentido). Sobretudo, sobretudo, porque me dá a presença, em atmosfera sonora, de pessoas queridas, apaixonadas pelos sons das palavras e por sequências não verbais do mundo, como o Miguel Martins, a Ana Isabel Dias, o Luís França, o João Madeira. Todos, afinal, os que compõem a maravilha que me dão a escutar.

Glossolalia saiu em 2024, pela editora 4darecord. Pode ser ouvido aqui.

Notas: Quinzinzinzili foi traduzido para a língua portuguesa por Inês Dias e está publicado na Antígona. O comentário de Frederico Lourenço sobre o passo dos «Atos dos Apóstolos» encontra-se na p. 52 do volume II da Bíblia que a editora Quetzal tem vindo a editar, na tradução de Lourenço.


Chuck Norris (1940-2026): doravante, aquilo lá em cima vai fiar mais fino


 


 

Polly Walker



 

Alberto Velho Nogueira: 82 anos hoje


 https://www.mediatheque.be/focus/alberto-velho-nogueira-histoire-de-collections-remarquables/

terça-feira, 17 de março de 2026

Hoje...

 ... depois de traduzir, das 5 às 11h30, decidi deixar de fumar cigarros, fiz a barba à passa-piolho*, fui sozinho a Cascais, almocei frango assado no Dom Manolo, comprei um cachimbo...

... e um livro...


... escrevi um poema...

Poucos, cada vez menos, compreendem

o trabalhoso, requintado prazer do desconforto,

as calças rasgadas, as camisolas puídas,

as repetitivas conservas e o arroz branco,

arroz, arroz, arroz, dia sim, dia também,

branco como a cal das valas comuns,

a estética do processo a jusante dos fins,

isto é, as infinitas possibilidades da imaginação.

 

Poucos, cada vez menos, compreendem

 a estupidez da objectividade — científica,

filosófica, ensaística — que, atendo-se aos sentidos

e à razão, oblitera tudo o mais, o imaginado,

o imaginável e o inimaginável, tudo

quanto torna a vida suportável e merecedora

de ser vivida, o corpo pelos campos,

o cérebro sempre dentro de água,

chilreios melodiosos nos ouvidos, o mar

a abeirar-nos os pés no lancil do passeio

e Xenakis, Varèse, Derek Bailey rindo como crianças

da inexistência de botões numa túnica.

 

Muitos, cada vez mais, escarnecerão

deste poema. O luar é, definitivamente, tartamudo

— há que aguardar a sílaba seguinte;

i-las colando com ânsia e paciência.

 

Miguel Martins

Cascais, 17/03/26

... e, sendo, 14h, já estou em casa a fazer esta postagem.

Kate Whitley - Autumn Songs (2016)


 

Giovanni Pergolesi - Confitebor tibi Domine, P.66 (c. 1730)

segunda-feira, 16 de março de 2026

Dinner by Chef MM


 


 

John Cranko - Pineapple Poll (1959)

Pineapple Poll is a Gilbert and Sullivan-inspired comic ballet, created by choreographer John Cranko with arranger Sir Charles Mackerras. Pineapple Poll is based on "The Bumboat Woman's Story", one of W. S. Gilbert's Bab Ballads, written in 1870. The Gilbert and Sullivan opera H.M.S. Pinafore was also based, in part, on this story. For the ballet, Cranko expanded the story of the Bab Ballad and added a happy ending. All the music is arranged from Sullivan's music.

The piece premiered in 1951 at Sadler's Wells Theatre and was given many revivals internationally during the following decades. It remains in the repertoire of the Birmingham Royal Ballet. It has also been recorded many times.


Documentary: Julian Benedikt's Der Spirit der Orgel (2025)


 

sábado, 14 de março de 2026


 


 

La tovaglia

 


Le dicevano: ― Bambina!

che tu non lasci mai stesa,

dalla sera alla mattina,

ma porta dove l’hai presa,

la tovaglia bianca, appena

ch’è terminata la cena!

Bada, che vengono i morti!

i tristi, i pallidi morti!

 

Entrano, ansimano muti.

Ognuno è tanto mai stanco!

E si fermano seduti

la notte attorno a quel bianco.

Stanno lì sino al domani,

col capo tra le due mani,

senza che nulla si senta,

sotto la lampada spenta.

 

È già grande la bambina;

la casa regge, e lavora:

fa il bucato e la cucina,

fa tutto al modo d’allora.

 

Pensa a tutto, ma non pensa

a sparecchiare la mensa.

Lascia che vengano i morti,

i buoni, i poveri morti.

 

Oh! la notte nera nera,

di vento, d’acqua, di neve,

lascia ch’entrino da sera,

col loro anelito lieve;

che alla mensa torno torno

riposino fino a giorno,

cercando fatti lontani

col capo tra le due mani.

 

Dalla sera alla mattina,

cercando cose lontane,

stanno fissi, a fronte china,

su qualche bricia di pane,

e volendo ricordare,

bevono lagrime amare.

Oh! non ricordano i morti,

i cari, i cari suoi morti!

 

― Pane, sì... pane si chiama,

che noi spezzammo concordi:

ricordate?... È tela, a dama:

ce n’era tanta: ricordi?...

Queste?... Queste sono due,

come le vostre e le tue,

due nostre lagrime amare

cadute nel ricordare!

 

Giovanni Pascoli

As coisas que eu já li...

Major Iain Grahame (1932-2023) was a soldier who served with a battalion of the Kings African Rifles in the 1950s, a naturalist, and later an antiquarian bookseller. This book focuses on Daws Hall, his breeding centre for wildfowl and rare pheasants, which has since become a nature reserve on the Essex/Suffolk border.