Extra Light
sexta-feira, 31 de julho de 2026
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Beethoven - 9th Symphony (1824)
quarta-feira, 29 de julho de 2026
terça-feira, 28 de julho de 2026
Antes da unificação dos Emiratos*
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Apocatástase
Aguardar-te-ei
até que a morte nos
separe
para depois nos unir.
Aguardar-te-ei
de costas voltadas
pois é no mar que melhor
consigo divisar
a forma eterna das
tuas feições
guardada numa nesga
incandescente da memória
que, friável, ao
redor dela se vai esboroando.
Nunca soube nada de
astronomia
e pouco de anatomia e
psicanálise;
tenho vagas noções de
história
e de uma geografia
desactualizada pela política
das salvas de tiros, dos
aplausos
e das transitórias
noções de desconfortável conforto.
Contudo,
aguardar-te-ei
naquela açoteia —
lembras-te? — onde fizemos amor
com vista sobre a
cidade,
com vista sobre o
mundo
de Oriente a Ocidente
e mais além,
como se os pontos
cardeais fossem estrelas
e as estrelas fossem
íris
e, em silêncio, prevendo
o inevitável,
jurassem para sempre:
Aguardar-te-ei.
(Escreveste-o, por
outras palavras, numa parede
— recordas-te? — e,
desde então, todos os dias,
o gravo com uma faca
no côncavo do meu peito.)
Aguardar-te-ei
enquanto for preciso
e até que o não seja,
até que a alma do
Diabo ascenda ao Paraíso
e nos sentemos à mesa
com vinho e peixe frito
ou apenas com as
nossas mãos
para repasto
das nossas mãos.
Miguel Martins
27/07/26
Projecto de Sucessão
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
por-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se índias.
António Maria Lisboa
domingo, 26 de julho de 2026
Paulo Ramalho*
Naquele «pic-nic» de burgueses,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão de bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!
Cesário Verde























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