With music from Handel (Passacaglia), Josquin des Préz, Mike Oldfield, Steve Reich and more
With music from Handel (Passacaglia), Josquin des Préz, Mike Oldfield, Steve Reich and more
Com a participação de: Alejandro Oliva, Alfredo Flores, Andrew Swinnerton, António Gonçalves, Arlindo Santos, Evgeny Kissin, Hannu Lintu, Inês Thomas Almeida, Joana Carneiro, Lawrence Foster, Leonor Braga Santos, Levi Condinho, Lorenzo Viotti, Luís Tinoco, Manuel Teixeira, Maria João Pires, Maria José Falcão, Muhai Tang, Risto Nieminen, Rui Vieira Nery, Teresa Nunes da Ponte, Varoujan Bartikian, Vera Dias.
À 2ª os museus estão
fechados.
É o nosso dia
favorito para o picnic das confidências.
Olho para o Amadeo e
falo-lhe da Vieira que tive nas mãos.
Fita-me abrindo os
olhos no meio daquela partida de xadrez, como que a dizer: és um gajo sortudo.
Relembro a memória e
agarro o repolho roxo do Eduardo Luíz.
Há que ter calma.
Só quero saborear
aquele verde “pistache” do Mário Botas.
Sorrimos um para o outro.
Gosto da nossa
malandragem, aponta ele.
Ok.
Tenho inveja da
cozinha de Manhufe, atirei eu, em forma de convite.
Timidamente
escondeu-se na viola, e ofereceu ao céu as cores que lhe faltavam.
Os galgos farejaram o
nosso delírio e deitaram-se com o único deus que os soube criar.
Amadeo, saiu da tela,
limpou os pés no pincel, e levou a cabeça do Santa-Rita para o passeio das
horas sem tempo.
António de Miranda
Comprar quer'eu, Fernam Furado, muu
que vi andar mui gordo no mercado,
mais trage já o alvaraz ficado,
Fernam Furado, no olho do cuu;
e anda bem, pero que fer'é d'unha,
e dize[m]-me que trage ũa espunlha,
Fernam Furado, no olho do cuu.
E, Dom Fernan Furado, daquel muu
creede bem que era eu pagado,
se nom que tem o alvaraz ficado,
Fernam Furado, no olho do cuu;
[e] é caçurr', e vejo que rabeja
e tem espunlha de carne sobeja,
Fernam Furado, no olho do cuu.
Airas Veaz
Sou uma daquelas
crianças
que receberam carvão
no sapatinho.
Mas, se servir para
assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está
perdido.
O que é um livro se
não um pássaro
morto nas minhas
mãos,
o lápis um galho
retorcido e caquético,
o papel uma mortalha
seca
carente de unguentos
—
ao meu toque, tudo
encarquilha.
“Tenho o coração
cheio de poemas”
escreves-me,
brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará
em ti sempre
essa primavera de
abelhas e joaninhas.
Embriagada de ti.
Lembras-me esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que
audíveis.
Na minha mente,
anunciavam
amiudadas boas-novas.
A vida era um domingo
sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para
trocar beijinhos com o vizinho do lado,
o rapaz mais tímido
da paróquia,
que importava se não
era baptizada.
Eis-me sem ideias de
renovar sangue.
Por aqui há fósforos
com as cabeças queimadas,
um frasco de feijão
sem rótulo nem tampa
atafulhado de
oferendas liofilizadas,
flores podres,
um samovar,
um museu trivial onde
as coisas estão
para as olharmos sem
interferirmos com elas
mais do que ao nível
quântico, como num velório.
Mas ninguém morreu
nem a minha vida está
a ser coada pelo passador de Caronte,
sou apenas absorvida
pelo sono.
Amanhã terei mais
certezas.
Até lá aproveito o
privilégio de te ter
enquanto tudo é
atirado borda fora,
incluindo a lei e a
ética.
Catarina Santiago
Costa
(no último número da
revista Nervo)
They fuck you up, your mum and dad.
They may not
mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some
extra, just for you.
But they were fucked up in their turn
By fools in
old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at
one another’s throats.
Man hands on misery to man.
It deepens
like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
And don’t
have any kids yourself.
PHILIP LARKIN