... que retirei da net (isto é, que não tive de datilografar), uns com mais de 30 anos, outros com meia dúzia.
SEIS POEMAS PARA UMA MORTE
1
Que importa o que não temos
quando a vida leva tudo o que nos dá
e a morte restitui-nos ao silêncio.
2
Naquele dia choveu ao contrário
a chuva fina e o seu silvo subiam do chão
e eu caindo da janela
sem um raio de sol que me amparasse.
3
Na noite clara da tua morte Pai
parto de vez para a margem da brandura
Levo nos olhos esta luz de dor
feixes opacos medas de cansaço
(como as que carregavas)
seara que nasce no sonho condenada
quando na alma a chama esmoreceu
Chegou-me a mim: já nada perdura
Querias saber o que era aquele nada
contra o qual lutava – sou eu
vazio de ti. Poupámos o Futuro.
4
Nem umas palavras de despedida
nem “adeus”
Será que depois nos encontramos
na terra linda onde são as coisas que não são
sem medo do fim?
Já moras, Pai, com o teu Cristo
o Cristo que nos salvou a todos
por termos alguém como tu.
Nunca te disse bem quanto te amava
como te amo muito dentro de mim
na terra linda onde são as coisas que não são
com tanto medo de as perder.
Estar a fazer a barba, cair
e partir para o outro lado
sem dizer tudo o que é preciso.
Ou como tu ficar assim à espera
suspenso de nada
à porta de Deus como um pedinte
pedinte de Deus
que só nos pediste que fôssemos melhores
e talvez por isso nos dás ainda mais uns minutos
da tua eternidade.
Vai agora, parte por favor
vai viver com as estrelas e com a alma das flores.
Sei que todos os dias continuarás a madrugar
para colher os odores mais puros.
Já não são precisos sacrifícios
aí é tudo dado num natal perpétuo e permanente.
Até nós te nos vamos dar
como tu te nos deste, como te entregaste cada dia
de manhã à noite
a Mãe
a Paula
o Ricardo
e eu
(por outra ordem espero que não esta
que eu não aguento mais)
vamos voltar a tocar-te o cabelo
o cabelo mais lindo que conheço
e a beijar-te
(como é possível que beijos tão a medo
como os teus quisessem sempre dizer tanto?).
E olha que se eu aí chegar
a essa terra que não mereço
é mesmo só por ti
é para te ver e ficar espantado
como só nos espantamos com os anjos.
Adeus Pai
tem calma.
Eu pensarei em ti todos os dias.
5
Tinhas-nos a nós
como nos querias
não como nós somos
Partiste
olhando o ar
pensando o Vago
escutando o Ser
na boca o Fluido
a essência do Sangue
nós
em tudo isso nós
o imenso Amor
Em que pensaste, Pai, nessa semana
em que soubeste tudo isso
que dizias há tanto
e que os homens procuram?
O teu olhar tão calmo
as tuas mãos
só diziam Amor
e a respiração era a de que ele é feito:
com a Mãe
sabe Deus e o vosso Amor quando
connosco
dia a dia e a desoras
com tanta gente
que eu nem adivinho
na mudez superior de quem é grande
Toda a vida
só fizeste Amor
Perdeste a Palavra e o Movimento
usa o meu corpo se isso for possível
Nunca será a mesma coisa
mas vou portar-me bem
(a gente cá sabe o que isto quer dizer)
Há que roubar as flores ao abandono
6
Guardo o brilho baço dos teus olhos
de seres inteiro em cada coisa
o Ritual dos dias conhecidos
e a alegria desentranhada
do fundo da eternidade
que é a bruma de Deus.
Guardo a entrega funda de saber
que a revolta não tem princípio nem fim
e aquela altivez tão especial inapercebida
que pode haver na submissão
de estarmos à frente dos homens e do tempo
viver como quem morre cada dia
e estarmos mortos como quem está vivo.
Aldeia
Adoro as levadas caudalosas serpenteando por entre avencas, levando consigo
pequenos blocos de terra, ensopando a terra, matando a sede a raízes que mais
parecem teias de aranha cujo centro se esconde a vários palmos de distância ou
longilíneas tarântulas.
Adoro os Verões iniciáticos, a aprendizagem de caminhos e trabalhos sob
as copas densas, os banhos na represa por entre libélulas e alfaiates e o esgar
de nojo quando, da ponte, se avista lá ao fundo um gato morto preso nas silvas das
margens de água límpida.
Adoro os invernos laboriosos, as encostas escorregadias, a lama nas
botas, a misteriosa caminhada até cada courela, o gesto medieval que ceifa o
talo à couve, o toucinho na salgadeira.
Adoro o regresso do ruído, a chegada das crianças da cidade, adoro
vê-las subir às amoreiras, as mãos miúdas confiando em nós de madeira
centenária, enquanto os pais me visitam na adega, cortamos uma broa e abrimos
uma garrafa de morangueiro fresco.
Adoro as casulas e os paramentos na sacristia e o pó que os cobre nos
meses de ausência do padre e o branco nu da capela e a pedra nua de todas as
outras casas, que é da cor das folhas de tabaco secas da plantação que o
Eduardo tem ao fundo do povo e esconde dos fiscais (ele que já viu mais mundo
que todos os fiscais da região e trabalhou na PanAm e foi aos Estados Unidos).
Adoro as trutas apanhadas à mão e o viveiro de trutas, nossa única
indústria desde que ruiu o moinho de água e só Deus sabe quanto isso me custou
e custa, saber que não mais sentirei o cheiro do milho acabado de moer.
Adoro as idas à mercearia da aldeia vizinha e a pouquíssima variedade de
produtos que aí se encontra, como se estivéssemos em tempo de guerra ou o
século XX não ousasse começar por aqui.
Adoro os fogões a lenha, as enormes arcas de nogueira, os colchões de
palha de milho confortavelmente concavados por décadas de hóspedes e a remota
possibilidade de serem do tempo em que João Brandão, “o terror das Beiras”, se
acoitou nestas casas.
Adoro os audazes mergulhos da ponte metálica coberta de caganitas de
cabra e as cabras e a mão desusada que as conduz e que sabe amar quando é
chegada a noite ou quando é chamada a iluminar um recanto de sombra.
Adoro as lamparinas e os morcegos que vêm chupar o azeite das torcidas,
o cheiro das queimadas e o cheiro do tojo acabado de roçar, e as pequenas
manchas roxas que as amoras esmagadas imprimem no chão.
Adoro as ameaças e as benesses do céu e a certeza de que nelas se
escondem todas as respostas da irrevogável vontade de Deus e adoro como uns são
pais dos filhos dos outros e deixam Deus fora da questão e não pegam em
espingardas.
Sim, adoro esta aldeia sem caçadores em que os pardais só temem os
espantalhos e os gritos que ecoam desde o outro lado das montanhas.
Adoro o tio Alfredo, que espantava as almas penadas, batendo com uma
corda nas costas, e o primo Alfredo que trabalha tanto como quem trabalha mais
e mimetiza o mesmo gesto para afugentar as dores que isso lhe dá por todo o
corpo.
Adoro a iniciação sexual dos rapazes, quase sempre com outros rapazes, anos
antes de terem uma rapariga, o que só acontece aos doze anos e depois não quer
dizer nada, que é como quem diz, fica vida fora.
Adoro o orvalho desenhando folhas de plantas nos vidros das janelas e janelas
nas folhas das plantas e a nitidez de todos os veios destas e de todas as veias
na pele das mulheres, que nunca tomaram banhos de sol e sempre cobrem as
cabeças com lenços ou chapéus de palha.
E adoro-vos a vós que nunca vistes nem vereis a minha aldeia e acabais
de a adoptar pelo útero.
[Uma caixa de cimento fresco.
Deita-o]
Uma caixa de cimento fresco. Deita-o
lá dentro. Mete-te na mota, arranca, não
penses mais nisso. A sul, há mulheres
cujo futuro é um avião que não deixa
traços no céu. A norte, se preferires,
há-as engarrafadas, em decilitragens
as mais diversas. Com os homens
é a mesma coisa, dois dedos de conversa
e uns quantos cubos de gelo. Meia
hora chega para ir repondo o stock
de episódios com que fingir que estamos
vivos. Isso deve bastar-te, excepto
se te achares mais do que os outros
e Deus te livre de uma coisa dessas.
É isso: aprende a metafísica das
t-shirts brancas, das curvas apertadas,
da velocidade calma. O resto é
conversa de poetas, filósofos, historia-
dores, que fumam mais do que vêem
e lêem mais do que assobiam ao sair
à rua. O resto é uma perda de tempo
e não eras tu o tal que tanto nos
maçava com a iminência da
morte, com a falência da Sociedade
por quotas, com a genealogia
dos suínos? Aproveita agora esta
oportunidade de não ser nada
contigo; juro-te que ninguém
te vai levar a mal; envia, apenas,
um postal de Tânger e um contacto,
para o caso de o Emanuel ou a
Angelina quererem ir de férias e
precisarem de um sítio onde ficar.
Não é pedir muito em troca da
tua liberdade. Vá! Uma caixa de
cimento fresco. Deita-o lá dentro.
Sabes do que estou a falar. Ver-
melho escuro. Isso. O coração.
Fine
Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes,
desconfortáveis.
Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado,
dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura.
Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem.
Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles
restasse apenas uma mancha de gordura no chão.
Em qualquer caso, emudeceriam. Ou não seriam escutados, o que vem a dar
ao mesmo.
Nunca contemplei esta hipótese por mais de cinco minutos – certamente,
nem tanto.
Não consigo. Não sei. Julgo que, no fundo, é o que menos quero. E que
essa é a raiz da minha resistência. Crónica e aguda.
Os sentimentos são onde sei viver, onde me sinto menos morto.
Os sentimentos sou eu.
Os melhores.
Os piores.
O beijo.
A bala.
(Ou vice-vresa).
Todos os nomes da intranquilidade.
[Ao sair da prisão,
esperavas-me,]
Ao sair da prisão, esperavas-me,
com uma ostra fresquíssima sobre as palmas
das mãos. Será sempre essa a imagem
que guardarei de ti, quer fiquemos juntos
para sempre, como dizem os padres,
quer partas para a China mais longínqua,
que é o coração de outro homem.
Depois de cinco anos cimentado,
rodeado pela música torturante de respirações
sem freio e sem paz, trouxeste-me o mar
a uma terra inferior, onde até os homens livres,
até as crianças, caminham de cabeça baixa.
Por isso, nunca te darei prendas no Natal
ou no teu aniversário: nada se poderia comparar
àquela lágrima feliz e vagamente sólida
que, nesse dia, me desceu pela garganta
até ao sítio indeterminado em que nos distinguimos
das feras. Posso apenas tentar confundir-me
com o tapete do corredor, com a torneira
da cozinha, com o creme que pões na cara,
de manhã ou à noite, e deixar que me dês o uso
que parecer melhor, ou que não me dês uso algum,
e aproveitar cada minuto dos teus gestos mais leves,
que, também eles, se assemelham ao mar,
quando as noites são calmas e o luar o ilumina
na baía de Cádis.
[Agora, és outra pessoa,]
Agora, és outra pessoa,
cheia de banalidades e pequenas alegrias.
O tempo e a distância encarregaram-se disso.
Sim, na minha ausência é costume desmoronarem-se
as encostas, outrora cuidadosamente escoradas.
Mas, mesmo colocando de parte o meu ego,
é evidente o encanto da normalidade,
da paz doméstica e social
e do correcto dimensionamento de cada um,
sem megalomanias nem paióis de pólvora seca,
sem insónias nem gritos
nem fantasmas de grandes artistas e pequenos ditadores
(ou vice-versa)
a correrem pela casa.
Não gosto de gatos nem de crianças,
de celebrações colectivas e famílias,
de prolongadas distensões estivais,
nem sei estar indubitavelmente presente,
como o frasco dos picles, na prateleira de baixo do armário.
Nunca soube nem fingi saber – conceder-me-ás isso,
assim como reconheço que nunca, sequer, senti culpa
por todos os pecados que pequei e pecarei
enquanto o tabaco não me paralisar os pulmões.
Os meus dias são feitos de excessos e vazios
e o vazio excessivo é a própria matéria por que pugno
o muito tempo todo em que não me calha compor
estas vagas linhas sobrepostas
a que insistem em chamar poesia
mas que são apenas a minha maneira de bocejar sem sono.
Era impossível permanecermos juntos –
dizem-mo a razão e a urgência de um impulso vital
para qualquer coisa só por ser a seguinte. No entanto,
uma mágoa moinha-me a pequena hélice do coração,
enquanto, à pressa, trinco uma sandes de mundo
na cantina do niilismo (ou vice-versa)
ou conduzo um carro de vento rumo ao Magreb medieval.
Das horas que passámos juntos não há remissão
e isso consola-me como nada mais, num recanto
muito fotogénico da memória ou talvez disso a que se chama alma.
Espero que esta te vá encontrar bem,
com meninos à ilharga, um marido que leia
o Diário de Notícias e romances históricos
e, apesar de tudo, um sorriso
ante a imensa precisão com que coloco uma mão toda
nas feridas dos outros
para evitar o ardor da tintura de iodo
nas minhas.
[Dizem que a vida me foi dada à borla.]
Dizem que a vida me foi dada à borla.
Só eu sei quanto isso me custa.
Dizem que não penso nos outros.
Deus sabe o tempo que gasto a pensar nisso.
Dizem que tenho um ego agigantado.
É a única coisa que tenho.
Dizem que vou acabar sozinho.
Têm razão.