(...) a miragem do anonimato sorria-me e atraía-me com o enlevo de
outrora, e decidi voltar a correr mundo, abrindo o último capítulo da vida em
termos de o tornar aprazível, despido de todo o género de ambição e vaidade,
mundana ou espiritual. E assim tenho feito, empregando artes de ninguém saber
nem suspeitar em mim o antigo chefe de Estado, o que me permite viver
modestissimamente e em plena liberdade de movimentos. E assim a existência me
tem corrido novamente propícia e feliz, não me parecendo que haja motivo para
mudar de rumo, e alimentando vagamente a esperança de nele seguir até "o
fim".
Saí de Portugal sem um livro, sem um papel, sem um apontamento ou nota;
nada que, de longe ou de perto, recordasse o antigo literato ou o político:
abri na vida uma página perfeitamente em branco. Pouco ou nada leio; como e
bebo com apetite e proveito; durmo a noite em dois sonos de pedra; faço todas
as manhãs uma hora de ginástica e à tarde dou um passeio regulamentar de dez
quilómetros; os museus, as igrejas, os monumentos, abrem-se-me como outras
tantas portas para o paraíso; o espectáculo das ruas nunca me embasbacou e
surpreendeu como agora; olho para o céu, para o mar, para as montanhas, para a
paisagem, com a encantada curiosidade de um ressuscitado; e escrevo a alguns
amigos com a abundância - a incontinência - que sabe. O que lhes digo é leve e
inconsciente, como é a minha bagagem literária. Vou consumindo, à semelhança de
certos animais que hibernam, a própria enxúrdia, adquirida com o magro chorume
das leituras passadas, e repito, invariavelmente, ao fim de cada dia:
"este já ninguém mo tira".
Manuel Teixeira-Gomes

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