domingo, 1 de março de 2020


(...) a miragem do anonimato sorria-me e atraía-me com o enlevo de outrora, e decidi voltar a correr mundo, abrindo o último capítulo da vida em termos de o tornar aprazível, despido de todo o género de ambição e vaidade, mundana ou espiritual. E assim tenho feito, empregando artes de ninguém saber nem suspeitar em mim o antigo chefe de Estado, o que me permite viver modestissimamente e em plena liberdade de movimentos. E assim a existência me tem corrido novamente propícia e feliz, não me parecendo que haja motivo para mudar de rumo, e alimentando vagamente a esperança de nele seguir até "o fim".
Saí de Portugal sem um livro, sem um papel, sem um apontamento ou nota; nada que, de longe ou de perto, recordasse o antigo literato ou o político: abri na vida uma página perfeitamente em branco. Pouco ou nada leio; como e bebo com apetite e proveito; durmo a noite em dois sonos de pedra; faço todas as manhãs uma hora de ginástica e à tarde dou um passeio regulamentar de dez quilómetros; os museus, as igrejas, os monumentos, abrem-se-me como outras tantas portas para o paraíso; o espectáculo das ruas nunca me embasbacou e surpreendeu como agora; olho para o céu, para o mar, para as montanhas, para a paisagem, com a encantada curiosidade de um ressuscitado; e escrevo a alguns amigos com a abundância - a incontinência - que sabe. O que lhes digo é leve e inconsciente, como é a minha bagagem literária. Vou consumindo, à semelhança de certos animais que hibernam, a própria enxúrdia, adquirida com o magro chorume das leituras passadas, e repito, invariavelmente, ao fim de cada dia: "este já ninguém mo tira".

Manuel Teixeira-Gomes

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