O cometa do amor só atinge o nosso coração uma vez na eternidade. É preciso velar o silêncio da noite para o ver. É preciso esperar muito tempo, muito, muito tempo. É isso o estado natural do amor, o seu estado inaugural, o encanto da sua natureza: esperar, esperar, esperar. O mais longe possível da precipitação e do ruído. O mais longe possível de qualquer crise. Esperar tranquilamente. O amor e a poesia, que é a sua consciência aérea, a sua mais humilde figura, o seu rosto ao despertar, é a profundidade da espera, a doçura da espera. Esperança doce e profunda e luminosa. (...). Como identificar as pessoas cansadas? É simples, elas não param de fazer coisas. Elas tornam inacessível para si o repouso, o silêncio, o amor. As pessoas cansadas tratam de assuntos, constroem casas, seguem uma carreira. É para fugir ao cansaço que elas fazem coisas e, ao fazerem coisas, tornam-se escravas das mesmas. O que elas fazem cada vez mais, fazem-no cada vez menos. A vida falta à própria vida. Entre elas e elas mesmas há um vidro. E vão esticando incessantemente o vidro. O cansaço vê-se nos seus traços, nas mãos, nas palavras. O cansaço é como uma nostalgia, um desejo inacessível.
Christian Bobin
(tradução: Teresa Noronha)

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