De repente (tem de haver um momento),
pára um aparelho, ou outro, ou todos ao mesmo tempo,
por exaustão
ou inépcia.
O mais das vezes, não se detêm em despedidas
ou fizeram-no antes, para que estas perdurassem
mais que o inconfiável som da voz
ou o cintilar baço dos olhos,
mistura de esperança em todas as improbabilidades
e inescapável nostalgia dos dias frente ao mar.
Como se acreditassem entrar apenas em hibernação,
essas pequenas máquinas de saúde imponderável
riscam ainda, com unhas de sonho, a lama da fonte,
onde, a cada ano, os pés das raparigas impúberes reinventam o Verão.
Parece um fósforo que deslizasse ao contrário sobre a lixa
e da chama nascesse o enxofre e deste umas termas muito antigas,
onde dar folga a todos os assomos de poesia,
a todas as insónias.
Contudo, é o mar (principalmente o mar)
que esses dispositivos moribundos idealizam por último
e junto a ele uma sombra esbatida e alongada,
a memória de esmeril de um sorriso ou de um choro,
daquilo que é impossível replicar.
26/08/22
Miguel Martins
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