sexta-feira, 26 de agosto de 2022

 

De repente (tem de haver um momento),

pára um aparelho, ou outro, ou todos ao mesmo tempo,

por exaustão

ou inépcia.

O mais das vezes, não se detêm em despedidas

ou fizeram-no antes, para que estas perdurassem

mais que o inconfiável som da voz

ou o cintilar baço dos olhos,

mistura de esperança em todas as improbabilidades

e inescapável nostalgia dos dias frente ao mar.

 

Como se acreditassem entrar apenas em hibernação,

essas pequenas máquinas de saúde imponderável

riscam ainda, com unhas de sonho, a lama da fonte,

onde, a cada ano, os pés das raparigas impúberes reinventam o Verão.

 

Parece um fósforo que deslizasse ao contrário sobre a lixa

e da chama nascesse o enxofre e deste umas termas muito antigas,

onde dar folga a todos os assomos de poesia,

a todas as insónias.

 

Contudo, é o mar (principalmente o mar)

que esses dispositivos moribundos idealizam por último

e junto a ele uma sombra esbatida e alongada,

a memória de esmeril de um sorriso ou de um choro,

daquilo que é impossível replicar.

 

26/08/22

Miguel Martins

Sem comentários:

Enviar um comentário