sábado, 6 de agosto de 2022

 


Não há dia que escape: todos os dias são mundiais de uma coisa qualquer, e hoje é, segundo parece, o dia mundial da ostra. Não houve um império ostro-húngaro, embora tenha existido um império ostrogodo, mas há todo um império de sentidos associado ao bivalve. Um fruto do mar, que dele nasce como uma Afrodite Anadiómena mas que se não revela em requebros pudicos de Boticelli, antes em forma de concha inviolável, que é preciso abrir à força, portanto, e que conserva em si os sucos marinhos que, escorregando na garganta, convocam os humores (suculentos, carnudos, mucosos), da deusa. E, com eles, toda a potência marinha que a originou: a espuma (aphros) dos órgãos genitais de Urano, que Cronos cortou e lançou no mar. Talvez aqui a associação afrodisíaca vulgarmente atribuída à ostra comece a soar estranha a muitos, e poderão alguns mesmo encanitar-se com a ideia de que esta narrativa possa não passar de um discurso de ideologia de género, porque de repente se percebe que até a ostra é não-binária, mas as coisas são como são. Aceitem (-se), ou espera-vos o solilóquio do ostracismo (uma variação do ser ou não ser). Engulam, mesmo que a custo: a ostra deixa-se escorregar se a deixarmos. Além disso, a ostra traz brindes: senão a pérola, pelo menos, sempre, a madrepérola (há uma muito possível volúpia conventual neste nome). Ao vapor, ou cruas, com ou sem limão, a ostra é uma experiência única. É uma pena viver uma vida inteira sem provar uma, e pelo menos de vez em quando. É também uma bela prenda para levar a um amigo que sai da prisão: uma “lágrima feliz e vagamente sólida / que, nesse dia, me desceu pela garganta / até ao sítio indeterminado em que nos distinguimos / das feras”, (d)escreveu o Miguel Martins.

O que é bonito nas coisas é, também, a possibilidade de elidir o seu óbvio. Por isso partilho aqui uma música do Chico Buarque escrita para o filme homónimo de Walter Lima Jr. (1997), baseado na obra de Moacir Costa Lopes.

A OSTRA E O VENTO

Vai a onda

Vem a nuvem

Cai a folha

Quem sopra meu nome?

Raia o dia

Tem sereno

O pai ralha

Meu bem trouxe um perfume?

O meu amigo secreto

Põe meu coração a balançar

Pai, o tempo está virando

Pai, me deixa respirar o vento

Vento

Nem um barco

Nem um peixe

Cai a tarde

Quem sabe meu nome?

Paisagem

Ninguém se mexe

Paira o sol

Meu bem terá ciúme?

Meu namorado erradio

Sai de déu em déu a me buscar

Pai, olha que o tempo vira

Pai, me deixa caminhar ao vento

Vento

Se o mar tem o coral

A estrela, o caramujo

Um galeão no lodo

Jogada num quintal

Enxuta, a concha guarda o mar

No seu estojo

Ai, meu amor para sempre

Nunca me conceda descansar

Pai, o tempo vai virar

Meu pai, deixa me carregar o vento

Vento

Vento, vento

Se o mar tem o coral

A estrela, o caramujo

Um galeão no lodo

Jogada num quintal

Enxuta, a concha guarda o mar

No seu estojo

Ai, meu amor para sempre

Nunca me conceda descansar

Pai, o tempo vai virar

Meu pai, deixa me carregar o vento

Vento, vento, vento


André Gago

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