Não há dia que escape: todos os dias são mundiais de uma coisa qualquer, e hoje é, segundo parece, o dia mundial da ostra. Não houve um império ostro-húngaro, embora tenha existido um império ostrogodo, mas há todo um império de sentidos associado ao bivalve. Um fruto do mar, que dele nasce como uma Afrodite Anadiómena mas que se não revela em requebros pudicos de Boticelli, antes em forma de concha inviolável, que é preciso abrir à força, portanto, e que conserva em si os sucos marinhos que, escorregando na garganta, convocam os humores (suculentos, carnudos, mucosos), da deusa. E, com eles, toda a potência marinha que a originou: a espuma (aphros) dos órgãos genitais de Urano, que Cronos cortou e lançou no mar. Talvez aqui a associação afrodisíaca vulgarmente atribuída à ostra comece a soar estranha a muitos, e poderão alguns mesmo encanitar-se com a ideia de que esta narrativa possa não passar de um discurso de ideologia de género, porque de repente se percebe que até a ostra é não-binária, mas as coisas são como são. Aceitem (-se), ou espera-vos o solilóquio do ostracismo (uma variação do ser ou não ser). Engulam, mesmo que a custo: a ostra deixa-se escorregar se a deixarmos. Além disso, a ostra traz brindes: senão a pérola, pelo menos, sempre, a madrepérola (há uma muito possível volúpia conventual neste nome). Ao vapor, ou cruas, com ou sem limão, a ostra é uma experiência única. É uma pena viver uma vida inteira sem provar uma, e pelo menos de vez em quando. É também uma bela prenda para levar a um amigo que sai da prisão: uma “lágrima feliz e vagamente sólida / que, nesse dia, me desceu pela garganta / até ao sítio indeterminado em que nos distinguimos / das feras”, (d)escreveu o Miguel Martins.
O que é bonito nas coisas é, também, a possibilidade de elidir o seu óbvio. Por isso partilho aqui uma música do Chico Buarque escrita para o filme homónimo de Walter Lima Jr. (1997), baseado na obra de Moacir Costa Lopes.
A OSTRA E O VENTO
Vai a onda
Vem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento
Vento
Nem um barco
Nem um peixe
Cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento
Vento
Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento
Vento, vento
Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
Vento, vento, vento
André Gago

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