Mesmo que chegasse neste segundo,
a minha carta de alforria viria demasiado tarde
— quarenta anos demasiado tarde —
e talvez me limitasse a mandar emoldurá-la
e a pendurasse na garagem sem carro,
das frestas de cujo chão a relva nasce castanha.
À medida que os músculos se atrofiam,
procuramos convencer-nos de que
o espaço mental
equivale ao físico, de que os suspiros são gritos,
e os mais histriónicos chegam a escrever Eureka!
como se o ponto de exclamação disparasse sémen.
Mas a verdade é que olho o futuro e vejo-o vazio,
só ar rarefeito, e também do passado vão desaparecendo
as decalcomanias perecíveis que outrora tomei
por estátuas de mármore.
Também a garagem é uma ficção: em meu nome,
nem tijolo nem pedra, apenas a pele
que se amesquinha, a língua que seca
e uma percentagem ínfima do idioma
que me atrevo a destratar com improvável relevância.
Mas, se tivesse chegado a tempo (a tal carta de alforria),
que teria eu feito com ela?
Teria gozado mais? Percorrido, um a um, os mistérios do tempo?
Teria guardado o amor na mão esquerda
enquanto, com a direita, fazia malabarismos
com berlindes multicolores para gáudio de uma plateia
de homens-zebras?
Ou teria acabado como estou? — amando ao de leve
coisas pequenas em letras esbatidas, bebendo
chás de limão e hortelã, como se a palma da minha mão
moldasse a pleura de Deus e, assim, fosse possível
reinventar de vez a mágica topografia
de um sorriso eterno como só o teu,
ó Santa Pecadora das Cores Imaginárias.
Miguel Martins
27/01/24
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