sábado, 27 de janeiro de 2024

 

Mesmo que chegasse neste segundo,

a minha carta de alforria viria demasiado tarde

— quarenta anos demasiado tarde —

e talvez me limitasse a mandar emoldurá-la

e a pendurasse na garagem sem carro,

das frestas de cujo chão a relva nasce castanha.

 

À medida que os músculos se atrofiam,

procuramos  convencer-nos de que o espaço mental

equivale ao físico, de que os suspiros são gritos,

e os mais histriónicos chegam a escrever Eureka!

como se o ponto de exclamação disparasse sémen.

 

Mas a verdade é que olho o futuro e vejo-o vazio,

só ar rarefeito, e também do passado vão desaparecendo

as decalcomanias perecíveis que outrora tomei

por estátuas de mármore.

 

Também a garagem é uma ficção: em meu nome,

nem tijolo nem pedra, apenas a pele

que se amesquinha, a língua que seca

e uma percentagem ínfima do idioma

que me atrevo a destratar com improvável relevância.

 

Mas, se tivesse chegado a tempo (a tal carta de alforria),

que teria eu feito com ela?

Teria gozado mais? Percorrido, um a um, os mistérios do tempo?

Teria guardado o amor na mão esquerda

enquanto, com a direita, fazia malabarismos

com berlindes multicolores para gáudio de uma plateia

de homens-zebras?

 

Ou teria acabado como estou? — amando ao de leve

coisas pequenas em letras esbatidas, bebendo

chás de limão e hortelã, como se a palma da minha mão

moldasse a pleura de Deus e, assim, fosse possível

reinventar de vez a mágica topografia

de um sorriso eterno como só o teu,

ó Santa Pecadora das Cores Imaginárias.

 

Miguel Martins

27/01/24

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