Em Portugal, era praticamente desconhecido, mas deixa como legado um importante acervo pictórico e literário
O pintor e escritor Alexandre Saldanha da Gama morreu na passada semana
num hospital de Bruxelas, cidade onde vivia há alguns anos. Exilado em Paris
muito antes do 25 de Abril, Alex, como era conhecido pelos amigos, tinha 76
anos e deixa uma importante obra pictórica, pouco conhecida em Portugal, apesar
das várias exposições que efectuou. Deixa também, além de inéditos, um conjunto
de livros em francês e português cujo último título, Preocupações Simples, com
desenhos do pintor e cenógrafo Mário Alberto, foi editado pela Sete Caminhos,
em 2004"A doutrina é simples: nem Deus, nem mestre, nem porto de
abrigo/simplesmente uma princesa para salvar o amor", escrevia num outro
livro seu , Zàzà (edições louva a deus, 2001). São palavras que definem uma
filosofia, colocando este autor num patamar de marginalidade, de fuga, de
inconformismo e de resistência, atitudes que foram sempre um lema para ele.
Saldanha da Gama foi um vadio apaixonado pela vida, um inclassificável enquanto
artista e poeta, um homem fragmentado dentro da sua própria memória e dos seus
sonhos, inconformado e inquieto: "Nunca aprendi a escrever, como os
outros, nunca copiei ninguém, é aos poucos que me construo/ tudo o que sei
inventei pelos meus próprios meios [...]."
Este ribatejano asmático nasceu em 1933 à beira do Almonda, junto a
Torres Novas. Ali passou a infância e, depois de uma passagem pelo sanatório,
pela prisão política e de muitas fugas, foi incorporando a alma de três cidades
decisivas para o seu espaço criativo: Lisboa, Paris e Bruxelas.
Tal como o rio da sua infância que corre sozinho para outros rios e
para o mar, também Alexandre se espraiou por ruas, becos e prédios daquelas
cidades à procura de um caminho, de uma identificação, de um discurso, de um
sentido qualquer para uma vida tão dispersa e rica: de tintas, de palavras, de
mulheres, de vinho e de amigos. Uma vida que o levou e continuava a levar a
sítios tão díspares como Santarém, Cascais, Nazaré, Porto, Setúbal e a tantos
outros lugares: "Fiz-me homem: ex-menino, ex-adolescente, ex-medroso,
ex-tuberculoso, ex-preso no Aljube, ex-livreiro, ex-concubino, ex-marido,
ex-militante, ex-tudo." E poderia eu acrescentar: ex-taxista,
ex-conserveiro, ex-carpinteiro de cena, ex-estivador...
Fundou a revista Le Canaille, em Paris, em 1973, uma revista de presse
parallèle em cujo primeiro número participaram, entre outros, os portugueses
Carlos Ferreiro e José Carlos González.
" O melhor que tenho a fazer hoje é meter a cabeça num saco de
lixo e deixar-me ir avec [...]", escreve. Este lado irrequieto, endiabrado
e irónico da sua escrita, espelho de si mesmo, sem concessões, manteve-se
intacto até à sua morte. Disso foi-nos dando conta em livros como Canto das
Cantinas, Pastorinhas, Canhenho de Notas, Mal Estacionado, Zàzà e em revistas como
Cadernos do Albatroz (Paris 1986), referência baudelairiana, e Órgão Oficial da
Literatura de Aguarrás, de que foi um dos fundadores, com Manuel Vaz. O
manifesto do Aguarrás introduz na literatura vigente uma corrente literária que
ele ironicamente define deste modo: "Hiper-realista neo-subromântica,
ultra-realista e anti-snobinard decadente." Era todo um programa
surrealizante e antipoder.
Longe dos circuitos comerciais e de todos os marketings, cada vez mais
desencantado com o amor e com o passar do tempo, mais zangado com a política e
com os homens, Saldanha da Gama foi vivendo os dias enrolado nas suas eternas
colagens e na sua escrita. Colagens que, como ele dizia, são "formas de
jardinar imagens". Escrita que é apenas isto: "O que escrevo é fruto
da cultura da rua [...]. Não escrever é um perigo [...]."
No passado mês de Fevereiro já não pôde estar na inauguração de uma
exposição sua no Centro Cultural Malaposta, em Odivelas, uma homenagem ao
Surrealismo em Portugal. Mas no ano passado ainda conseguiu fazer a sua última
exposição/performance: Atirou tudo aquilo que tinha em casa, móveis, roupas,
livros, para o lixo e ficou à espera da visita da imprensa, de corpo nu, num
apartamento vazio. Foi o último e significativo gesto artístico da sua vida.
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