quarta-feira, 11 de junho de 2025

Alexandre Saldanha da Gama segundo Jaime Rocha (2009)

 

Em Portugal, era praticamente desconhecido, mas deixa como legado um importante acervo pictórico e literário

O pintor e escritor Alexandre Saldanha da Gama morreu na passada semana num hospital de Bruxelas, cidade onde vivia há alguns anos. Exilado em Paris muito antes do 25 de Abril, Alex, como era conhecido pelos amigos, tinha 76 anos e deixa uma importante obra pictórica, pouco conhecida em Portugal, apesar das várias exposições que efectuou. Deixa também, além de inéditos, um conjunto de livros em francês e português cujo último título, Preocupações Simples, com desenhos do pintor e cenógrafo Mário Alberto, foi editado pela Sete Caminhos, em 2004"A doutrina é simples: nem Deus, nem mestre, nem porto de abrigo/simplesmente uma princesa para salvar o amor", escrevia num outro livro seu , Zàzà (edições louva a deus, 2001). São palavras que definem uma filosofia, colocando este autor num patamar de marginalidade, de fuga, de inconformismo e de resistência, atitudes que foram sempre um lema para ele. Saldanha da Gama foi um vadio apaixonado pela vida, um inclassificável enquanto artista e poeta, um homem fragmentado dentro da sua própria memória e dos seus sonhos, inconformado e inquieto: "Nunca aprendi a escrever, como os outros, nunca copiei ninguém, é aos poucos que me construo/ tudo o que sei inventei pelos meus próprios meios [...]."

Este ribatejano asmático nasceu em 1933 à beira do Almonda, junto a Torres Novas. Ali passou a infância e, depois de uma passagem pelo sanatório, pela prisão política e de muitas fugas, foi incorporando a alma de três cidades decisivas para o seu espaço criativo: Lisboa, Paris e Bruxelas.

Tal como o rio da sua infância que corre sozinho para outros rios e para o mar, também Alexandre se espraiou por ruas, becos e prédios daquelas cidades à procura de um caminho, de uma identificação, de um discurso, de um sentido qualquer para uma vida tão dispersa e rica: de tintas, de palavras, de mulheres, de vinho e de amigos. Uma vida que o levou e continuava a levar a sítios tão díspares como Santarém, Cascais, Nazaré, Porto, Setúbal e a tantos outros lugares: "Fiz-me homem: ex-menino, ex-adolescente, ex-medroso, ex-tuberculoso, ex-preso no Aljube, ex-livreiro, ex-concubino, ex-marido, ex-militante, ex-tudo." E poderia eu acrescentar: ex-taxista, ex-conserveiro, ex-carpinteiro de cena, ex-estivador...

Fundou a revista Le Canaille, em Paris, em 1973, uma revista de presse parallèle em cujo primeiro número participaram, entre outros, os portugueses Carlos Ferreiro e José Carlos González.

" O melhor que tenho a fazer hoje é meter a cabeça num saco de lixo e deixar-me ir avec [...]", escreve. Este lado irrequieto, endiabrado e irónico da sua escrita, espelho de si mesmo, sem concessões, manteve-se intacto até à sua morte. Disso foi-nos dando conta em livros como Canto das Cantinas, Pastorinhas, Canhenho de Notas, Mal Estacionado, Zàzà e em revistas como Cadernos do Albatroz (Paris 1986), referência baudelairiana, e Órgão Oficial da Literatura de Aguarrás, de que foi um dos fundadores, com Manuel Vaz. O manifesto do Aguarrás introduz na literatura vigente uma corrente literária que ele ironicamente define deste modo: "Hiper-realista neo-subromântica, ultra-realista e anti-snobinard decadente." Era todo um programa surrealizante e antipoder.

Longe dos circuitos comerciais e de todos os marketings, cada vez mais desencantado com o amor e com o passar do tempo, mais zangado com a política e com os homens, Saldanha da Gama foi vivendo os dias enrolado nas suas eternas colagens e na sua escrita. Colagens que, como ele dizia, são "formas de jardinar imagens". Escrita que é apenas isto: "O que escrevo é fruto da cultura da rua [...]. Não escrever é um perigo [...]."

No passado mês de Fevereiro já não pôde estar na inauguração de uma exposição sua no Centro Cultural Malaposta, em Odivelas, uma homenagem ao Surrealismo em Portugal. Mas no ano passado ainda conseguiu fazer a sua última exposição/performance: Atirou tudo aquilo que tinha em casa, móveis, roupas, livros, para o lixo e ficou à espera da visita da imprensa, de corpo nu, num apartamento vazio. Foi o último e significativo gesto artístico da sua vida.

https://www.publico.pt/2009/07/19/jornal/morreu-alexandre-saldanha-da-gama-homem-fragmentado-pintor-17318775

Sem comentários:

Enviar um comentário