sábado, 7 de junho de 2025

 

Outrora, parecer-nos-ia estranho

mas a monotonia do quotidiano

vai-se afigurando menos má

do que as suas alternativas

à medida que os passos encurtam

e, de toda a incerteza, tememos mais o susto

do que saudamos o júbilo.

A velhice prescinde de surpresas,

de festas, de revoluções

que não as de uma unha arranhando

arritmicamente o tampo da mesa,

frente a outra mão que faz o mesmo

para matar o tempo

e reiterar uma fé compartilhada

na absoluta absurdez de tudo.

Sem ideias.

Sobretudo, sem palavras.

Poesia dúctil do zunido dos insectos

no cosmos. Pequena catarse dos séculos

e da carne.

 

Miguel Martins

07/06/25

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