Outrora, parecer-nos-ia estranho
mas a monotonia do quotidiano
vai-se afigurando menos má
do que as suas alternativas
à medida que os passos encurtam
e, de toda a incerteza, tememos mais o susto
do que saudamos o júbilo.
A velhice prescinde de surpresas,
de festas, de revoluções
que não as de uma unha arranhando
arritmicamente o tampo da mesa,
frente a outra mão que faz o mesmo
para matar o tempo
e reiterar uma fé compartilhada
na absoluta absurdez de tudo.
Sem ideias.
Sobretudo, sem palavras.
Poesia dúctil do zunido dos insectos
no cosmos. Pequena catarse dos séculos
e da carne.
Miguel Martins
07/06/25
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