Tous les matins du monde
O olhar erra. Erra porque falha
e erra (e falha) porque deambula,
afastando-se da essência, acima
(e abaixo) de tudo o mais. Assim
errei (e erro) sempre que penso
no que não seja a luz espectral
que emana da tua memória,
única redenção possível da fé
na ciência dos dias, como se estes
pudessem fender a cápsula
de mistério que trazias na mão
sem sequer chamares a atenção
para ela, sem sequer chamares
a atenção para ti, cordeiro
sacrificial que não soube venerar.
O olhar erra. E eu errei. Por não
me saber cegar com os teus dedos,
por estar sedento de mundo,
aleivosia. E, agora, só me restam
lágrimas, só elas me matam a sede,
a terrível sede de uma distância
infinda como sepultura que chegasse
aos antípodas, ao fundo do fundo
do vazio, outrora tão cheio como
o imorredouro eco da tua voz,
do teu riso, bênção traçando a giz
todas as manhãs do mundo.
Miguel Martins
21/01/2026
Sem comentários:
Enviar um comentário