quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Tous les matins du monde

 

O olhar erra. Erra porque falha

e erra (e falha) porque deambula,

afastando-se da essência, acima

(e abaixo) de tudo o mais. Assim

errei (e erro) sempre que penso

no que não seja a luz espectral

que emana da tua memória,

única redenção possível da fé

na ciência dos dias, como se estes

pudessem fender a cápsula

de mistério que trazias na mão

sem sequer chamares a atenção

para ela, sem sequer chamares

a atenção para ti, cordeiro

sacrificial que não soube venerar.

O olhar erra. E eu errei. Por não

me saber cegar com os teus dedos,

por estar sedento de mundo,

aleivosia. E, agora, só me restam

lágrimas, só elas me matam a sede,

a terrível sede de uma distância

infinda como sepultura que chegasse

aos antípodas, ao fundo do fundo

do vazio, outrora tão cheio como

o imorredouro eco da tua voz,

do teu riso, bênção traçando a giz

todas as manhãs do mundo.

 

Miguel Martins

21/01/2026

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