Estás à procura de alguma coisa. Estando à procura, por definição, não sabes
o que é ou, pelo menos, não sabes onde está. Eu sempre soube, tive-o
e, depois, abandonei-o, lembro-me perfeitamente quando e onde. Pensar
e agir, suponho, são coisas que fazem falta a quem não sabe. E saber,
lamento
dizer-to, só por uma iluminação involuntária que só é dada a quem até
saber
despreza. De igual modo, só quem despreza os bens materiais deveria
tê-los
e só quem despreza o poder e os homens deveria orientá-los. Então, ao
fim
da tarde, regressaríamos às nossas palhotas, de corpos cansados e
espíritos
serenos, assaríamos trutas na fogueira, gabar-nos-íamos de uma
corrida
a nado, foderíamos como larvas emaranhadas e incandescentes e, semideuses,
dormiríamos sonos de pedra com
cintilações de novas águas a conquistar.
Miguel Martins
08/02/26
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