quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

 


Um amor de dois perfumes

 

Cantando junto dum lago,

Macio como o seu olhar,

Que se não evaporava

Só para ouvi-la cantar,

A branca visão serena,

Tão leve como a neblina,

Tinha a voz húmida e pura

Como a da luz matutina.

Se ao lírio Deus desse o canto

E desse voz à estrela,

Nunca, a estrela ou o lírio,

Cantariam como ela.

Encantada, que encantava

Fora das humanas normas,

Era uma luz cinzelada,

Ou um aroma com formas.

A seus pés, o manso lago

Desfalecia em desejos,

Com a água arrepiada

De carícias e de beijos.

Um trovador, que os seus olhos

Conseguiram enlear,

Um trovador que ela amava,

Certo dia a quis beijar;

Da visão se evaporaram

As formas tão olorosas,

Deixando toldado o Ar

Com um perfume de rosas.

— Não me beijes que te encantas —

Longínqua voz murmurou

Alá não quer que me beijem;

Inda ninguém me beijou… —

Junto ao lago adormecida,

Achou-a o trovador,

Numa noite em que as estrelas

Andavam tontas de amor.

O lago enrolava as ondas,

Para ver se a alcançava,

E, ao cimo dessas ondas,

Beijos de prata mandava.

O trovador, de joelhos,

Tremendo de comoção,

No peito ouvia ruflar

As asas do coração.

Ia, afinal, dar-lhe um beijo,

Tê-la, afinal, entre os braços;

Com ciúme e raiva, os astros

Rugiam pelos espaços.

Poisou o beijo infinito

Na boca fresca e mimosa,

Como uma asa de luz

Que poisa sobre uma rosa.

Realizou-se o que, Alá,

Já havia anunciado:

Beijou-a, evaporou-se,

Ficou também encantado…

Dois perfumes que voaram

Nessa noite alva e serena…

Por não tornar mais a vê-la,

Finou-se o lago de pena.

Erram, talvez, pelo Céu,

Entre os astros e as procelas,

Espalhando com os beijos

Novos enxames de estrelas;

Ou quem sabe, se na terra,

Prendeu Alá, esse amor,

E se vivem hoje os dois

No cálix dalguma flor!


João Lúcio

Sem comentários:

Enviar um comentário