A memória tem razões imperscrutáveis. Lembro-me do dia 16 de Agosto de 1977. Faltavam três meses para fazer oito anos. Estava com os meus pais e os meus irmãos a passar férias em Albufeira, terra em cuja economia a pesca ainda ombreava com o turismo. Numa roulotte que vendia malacuecos (nome alentejano de umas frituras achatadas) junto à antiga lota, de que hoje só sobra o telheiro, ouvia-se Bilu Teteia, canção editada dois anos antes por Mauro Celso, mas alguém nos disse que o Elvis Presley morrera. Claro que, com aquela idade, não tinha noção da relevância do Elvis para a cultura popular. Creio que o que me impressionou foi o modo como a morte de um artista estrangeiro, de alguém que não conheciam pessoalmente, afectava as pessoas à minha volta, experiência que só viria a ter muito mais tarde, em 1991, com o Freddie Mercury, que ouvi à exaustão em LPs dos meus irmãos, e, mais recentemente, em 2016, com o David Bowie. Pelo meio, em Dezembro de 1980, fora assassinado o John Lennon, metade da maior parceria de escrita de canções da história do pop/rock, mas a minha percepção disso também ainda foi mais do foro da curiosidade do que do sentimento. Não se me pode levar a mal: tinha 11 anos. Hoje seria diferente. E cada vez mais. Com a idade, e apesar de existirem vários discos com letras minhas, fui praticamente deixando de ouvir música popular, a não ser a que consumimos à força. Contudo, simultaneamente, vou-lhe dando cada vez mais valor, não tanto do ponto de vista artístico, mas sim pelo papel que desempenha na sociedade. Ou, como diz uma canção de Caetano Veloso, interpretada por Chico Buarque:
(…)
Vamos homenagear
Todo aquele que nos empresta sua festa
Construindo coisas pra se cantar
(…)
E acima da razão a rima
E acima da rima a nota da canção
Bemol natural sustenida no ar
Viva aquele que se presta a esta ocupação
Salve o compositor popular
Miguel Martins



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