... depois de traduzir, das 5 às 11h30, decidi deixar de fumar cigarros, fiz a barba à passa-piolho*, fui sozinho a Cascais, almocei frango assado no Dom Manolo, comprei um cachimbo...
... e um livro...
... escrevi um poema...
Poucos, cada vez menos, compreendem
o trabalhoso, requintado prazer do desconforto,
as calças rasgadas, as camisolas puídas,
as repetitivas conservas e o arroz branco,
arroz, arroz, arroz, dia sim, dia também,
branco como a cal das valas comuns,
a estética do processo a jusante dos fins,
isto é, as infinitas possibilidades da imaginação.
Poucos, cada vez menos, compreendem
a estupidez da objectividade —
científica,
filosófica, ensaística — que, atendo-se aos sentidos
e à razão, oblitera tudo o mais, o imaginado,
o imaginável e o inimaginável, tudo
quanto torna a vida suportável e merecedora
de ser vivida, o corpo pelos campos,
o cérebro sempre dentro de água,
chilreios melodiosos nos ouvidos, o mar
a abeirar-nos os pés no lancil do passeio
e Xenakis, Varèse, Derek Bailey rindo como crianças
da inexistência de botões numa túnica.
Muitos, cada vez mais, escarnecerão
deste poema. O luar é, definitivamente, tartamudo
— há que aguardar a sílaba seguinte;
i-las colando com ânsia e paciência.
Miguel Martins
Cascais, 17/03/26

Sem comentários:
Enviar um comentário