terça-feira, 17 de março de 2026

Hoje...

 ... depois de traduzir, das 5 às 11h30, decidi deixar de fumar cigarros, fiz a barba à passa-piolho*, fui sozinho a Cascais, almocei frango assado no Dom Manolo, comprei um cachimbo...

... e um livro...


... escrevi um poema...

Poucos, cada vez menos, compreendem

o trabalhoso, requintado prazer do desconforto,

as calças rasgadas, as camisolas puídas,

as repetitivas conservas e o arroz branco,

arroz, arroz, arroz, dia sim, dia também,

branco como a cal das valas comuns,

a estética do processo a jusante dos fins,

isto é, as infinitas possibilidades da imaginação.

 

Poucos, cada vez menos, compreendem

 a estupidez da objectividade — científica,

filosófica, ensaística — que, atendo-se aos sentidos

e à razão, oblitera tudo o mais, o imaginado,

o imaginável e o inimaginável, tudo

quanto torna a vida suportável e merecedora

de ser vivida, o corpo pelos campos,

o cérebro sempre dentro de água,

chilreios melodiosos nos ouvidos, o mar

a abeirar-nos os pés no lancil do passeio

e Xenakis, Varèse, Derek Bailey rindo como crianças

da inexistência de botões numa túnica.

 

Muitos, cada vez mais, escarnecerão

deste poema. O luar é, definitivamente, tartamudo

— há que aguardar a sílaba seguinte;

i-las colando com ânsia e paciência.

 

Miguel Martins

Cascais, 17/03/26

... e, sendo, 14h, já estou em casa a fazer esta postagem.

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