segunda-feira, 30 de março de 2026

 


«Jazz às Quintas»

                                     Para a Catarina Gomes

 

18:40 — Café Dias
apinhado de gente

e nós as duas encostadas ao balcão
no ínfimo espaço disponível
duas imperiais
como pequenas promessas de anestesia.

Pedimos croquetes,
quentes demais,
abrimos um ao meio
e o vapor sobe
como um espírito que abandona um corpo cansado.

Tu dizes “isto salva qualquer noite” com a boca cheia,
e por um segundo
acredito numa teologia feita de fritos e cevada.

No canto:
baterista, contrabaixista, trompetista
a santíssima trindade do barulho honesto.

19:15 — O baterista testa o mundo
com toques leves,
como quem vê se o chão ainda aguenta.

O contrabaixo entra depois,
grave,
andar de animal grande pela sala,
cada nota um passo lento
no peito de toda a gente.

O trompete demora, claro.
sempre aquele ar de quem sabe
que vai doer quando começar.

Croquetes comidos.
Eram bons, mas já acabaram —
como certas decisões na vida.

Partilhamos uma cadeira
uma nádega para cada uma
o baterista não pára
(abençoado seja).

19:50 — O trompete rasga o ar.
não melodia:
confissão.

É a minha primeira vez neste bar,
mas vem-me uma sensação estranha
de já ter estado naquele som,
noutra cidade,
noutro corpo,
noutra versão cansada de mim.

Anoto mentalmente:
“A vida adulta é isto —
pagar contas,
perder tempo,
perder amores,
e às vezes encontrar um bar
onde a cerveja é barata
e o jazz é sincero.”

O contrabaixista fecha os olhos,
abraça o instrumento
como se pedisse desculpa
ou agradecesse por ainda aqui estar.

20:00 — Conversa possível
sussurrada ao ouvido para não incomodar
quem ali está para ouvir os músicos
novas aventuras,
medos discretos,
a pergunta clássica:
“é isto mesmo que a vida é?”

O baterista responde por nós:
tum — tss — tum —
seguir, seguir, seguir.

Mais um gole.
A sala quente,
vidros embaciados,
Lisboa lá fora a fingir que o inverno está quase a acabar.

20:45 — O solo do trompete sobe tanto
que por um momento
ninguém mastiga, ninguém fala,
ninguém pensa.

E ali está:
nada resolvido,
nada curado,
mas tudo vivo.

21:15 — Saímos para a rua húmida.
ar frio na cara, chuva miudinha,
riso solto,
passos meio desalinhados
como se ainda seguíssemos o baterista invisível
que disseste ser giríssimo.

Penso:
“Não precisamos de grandes revelações.
Às vezes basta
cerveja,
croquetes,
uma amiga,
e três músicos de jazz
a impedir o silêncio
de ganhar a noite.”

Atravessamos a rua
improvisando futuro
nota a nota,
gole a gole,
como sempre.


Inês Ramos

(Inédito)

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