quinta-feira, 7 de maio de 2026

 


Sou uma daquelas crianças

que receberam carvão no sapatinho.

Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,

nem tudo está perdido.

 

O que é um livro se não um pássaro

morto nas minhas mãos,

o lápis um galho retorcido e caquético,

o papel uma mortalha seca

carente de unguentos —

ao meu toque, tudo encarquilha.

 

“Tenho o coração cheio de poemas”

escreves-me, brilhando do outro lado da rua.

Por isso, perdurará em ti sempre

essa primavera de abelhas e joaninhas.

 

Embriagada de ti.

Lembras-me esse tempo

em que os sinos eram

mais reais do que audíveis.

Na minha mente, anunciavam

amiudadas boas-novas.

A vida era um domingo sem fim

no bairro da Estrela.

Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho do lado,

o rapaz mais tímido da paróquia,

que importava se não era baptizada.

 

Eis-me sem ideias de renovar sangue.

Por aqui há fósforos com as cabeças queimadas,

um frasco de feijão sem rótulo nem tampa

atafulhado de oferendas liofilizadas,

flores podres,

um samovar,

um museu trivial onde as coisas estão

para as olharmos sem interferirmos com elas

mais do que ao nível quântico, como num velório.

 

Mas ninguém morreu

nem a minha vida está a ser coada pelo passador de Caronte,

sou apenas absorvida pelo sono.

Amanhã terei mais certezas.

Até lá aproveito o privilégio de te ter

enquanto tudo é atirado borda fora,

incluindo a lei e a ética.

 

Catarina Santiago Costa

(no último número da revista Nervo)

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