Sou uma daquelas
crianças
que receberam carvão
no sapatinho.
Mas, se servir para
assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está
perdido.
O que é um livro se
não um pássaro
morto nas minhas
mãos,
o lápis um galho
retorcido e caquético,
o papel uma mortalha
seca
carente de unguentos
—
ao meu toque, tudo
encarquilha.
“Tenho o coração
cheio de poemas”
escreves-me,
brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará
em ti sempre
essa primavera de
abelhas e joaninhas.
Embriagada de ti.
Lembras-me esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que
audíveis.
Na minha mente,
anunciavam
amiudadas boas-novas.
A vida era um domingo
sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para
trocar beijinhos com o vizinho do lado,
o rapaz mais tímido
da paróquia,
que importava se não
era baptizada.
Eis-me sem ideias de
renovar sangue.
Por aqui há fósforos
com as cabeças queimadas,
um frasco de feijão
sem rótulo nem tampa
atafulhado de
oferendas liofilizadas,
flores podres,
um samovar,
um museu trivial onde
as coisas estão
para as olharmos sem
interferirmos com elas
mais do que ao nível
quântico, como num velório.
Mas ninguém morreu
nem a minha vida está
a ser coada pelo passador de Caronte,
sou apenas absorvida
pelo sono.
Amanhã terei mais
certezas.
Até lá aproveito o
privilégio de te ter
enquanto tudo é
atirado borda fora,
incluindo a lei e a
ética.
Catarina Santiago
Costa
(no último número da
revista Nervo)

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