quarta-feira, 19 de agosto de 2026

 


Numa colina, uma mulher sentada

esbelta, de pele macia, escura,

soa ritmos permanentes de volições

em nota

por uma flauta transversal.

Descaindo planos os cabelos

robustos, pelos ombros

finamente esculpidos,

ao som de aragens suaves

movendo ténues raízes aéreas

numa árvore ancestral.

Antes que do céu compacto

as nuvens estalassem

luminosas nervuras,

tão prateadas

como o fluxo despenteado

da cabeleira

do homem idoso, lívido

aparecendo imóvel

ao lado das vitrines,

erguendo-se compactas

no centro daquele vasto corredor.

Olhos nos olhos, o espanto,

por entre a luz mortiça, pálida.

A trovoada lá fora a girar,

abrindo-se num sorriso lento

o homem de pijama

com a mão trémula

a querer chegar a si num gesto

curto, na imensa surpresa.

 

Diniz Conefrey

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