segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 

Quando eu morrer, haverá mulheres que se fingirão surdas

para que os maridos não saibam que existem para lá deles,

para que os filhos não imaginem que ainda estão vivas,

para que os amigos não pasmem com o estulto petulante

que era, às vezes, um cais de fogo e de ternura

— vinho, bálsamo, magma ou só canção.

 

Haverá crianças de sol e penitência a cruzar a ralé

com os olhos num livro e a alma a oriente de onde estão,

sem me saberem também cerzidor desse fio,

pequena aranha laboriosa e friável,

discrição escondida por trás do espalhafato.

 

E lá estarás tu, meu imenso silêncio,

minha espera presente, flor do cacto,

íris cintilante, distância interior.

Lá estarás, como sempre, em todos os amores,

em todas as infâncias que toquei ao de leve

e, sobretudo no sol, tu, ó minha pele.

 

Miguel Martins

26/10/26

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