Às vezes, basta um pouco de paz, uma tarde mansa,
para que o amor se substitua à raiva, para que a memória
tome o lugar do vento. Então, vejo-nos de mãos dadas
no caminho de cabras que vai da minha origem mais antiga
ao Poço da Cesta, lagoa mínima de reflexos divinos.
Apesar de ser noite, daquelas noites tão negras que ameaçam
com lobos e multiplicam as estrelas, vemos no chão-
-sem-propriedade os figos que aí tombam e se reproduzem
para quem os queira, quase sempre apenas os melros
do Junqueiro, restituídos à sua liberdade eterna e musical.
Então, sinto um quase-nada, um tacógrafo imponderável,
insinuar-se nos côncavos das nossas mãos suadas. Abrimo-las
lenta e misteriosamente. E a luz de um pirilampo, muito intensa,
varre-nos as íris como um farol as ondas que se encrespam
em morte incompetente. Estúpido e inconveniente, como sempre,
sou percorrido por um diaporama de rostos, professores
de ciências naturais que, revolucionarissimamente, me asseveraram
coisas acerca da melanina e talvez agora estejam a nadar
numa piscina de amido, espaço sideral à sua dimensão.
Mas, em silêncio, diriges-te à levada da berma do caminho,
pousas a criatura e, ao regressares, involuntariamente,
trazes uma pétala amarela colada à palma da mão. Por um instante,
julgo compreender de Deus tudo quanto devo e, ao longe,
ouve-se o sino de uma igreja, ou talvez seja um badalo num curral,
que, bem vistas as coisas, em tudo se assemelham.
Miguel Martins
27/06/2018
(Um ano, dois meses e quinze dias depois do último poema e sem que lhe
pretenda dar continuidade.)

Quem nos pôs mansos agora foste tu com esta pérola renascida.
ResponderEliminarJá não sei se é melhor o desassossego ou o sossego.
Coimas para quem não dá continuidade a coisas assim.👌👅
Cris