Compreende-se que lá
para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de
certo Fernão barbudo
que plantava couves
em Oliveira do Hospital,
ou da minha virtuosa
tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato
toda vestida de veludo
sentada num canapé
junto de um vaso com flores.
Compreende-se.
E até mesmo que já
ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o
Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós,
todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o
Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das
Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas
encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o
Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,
e passavam a vida
inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o
pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí
fora,
e a Guerra dos Cem
Anos,
e a Invencível
Armada,
e as campanhas de
Napoleão,
e a bomba de
hidrogénio.
Compreende-se.
Mais império menos
império,
mais faraó menos
faraó,
será tudo um
vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.
Compreende-se.
Lá para o ano três
mil e tal.
E o nosso sofrimento
para que serviu afinal?
António Gedeão
(Thanks, Filipe.)

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