quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Poema do alegre desespero

 


Compreende-se que lá para o ano três mil e tal

ninguém se lembre de certo Fernão barbudo

que plantava couves em Oliveira do Hospital,

 

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores

que tirou um retrato toda vestida de veludo

sentada num canapé junto de um vaso com flores.

 

Compreende-se.

 

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto

(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)

com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,

e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,

e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,

e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,

que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

 

e passavam a vida inteira a fazer guerras,

e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,

e o resto tudo por aí fora,

e a Guerra dos Cem Anos,

e a Invencível Armada,

e as campanhas de Napoleão,

e a bomba de hidrogénio.

 

Compreende-se.

 

Mais império menos império,

mais faraó menos faraó,

será tudo um vastíssimo cemitério,

cacos, cinzas e pó.

 

Compreende-se.

Lá para o ano três mil e tal.

 

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

 

António Gedeão

(Thanks, Filipe.)

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